um blogfolio de coisas sonoras

3.10.13

A Winged Victory For The Sullen @ Village Underground 1.10.2013

Na Cecil Sharp House terminaram o concerto com Pärt. No Hackney Empire tocaram uma versão da Jesus Blood Never Failed On Me Yet. No Village Underground, para evitar previsibilidades, Adam Wiltzie cantou. Sim, cantou. Uma versão de Spirit Ditch dos Sparklehorse com prévia dedicatória a Mark Linkous. A voz saiu-lhe ténue e frágil ao jeito de Linkous e pela primeira vez pairou pop na música para piano e quinteto de cordas dos A Winged Victory For The Sullen. Ficou-lhes bem. Mais do que tudo invocou fantasmas que fizeram lembrar momentos de um concerto dos The Dead Texan com Sparklehorse há uns anos no Shepherds Bush Empire (algo parecido com isto). 

A razão que traz os AWFTS novamente a Londres não é a apresentação de um disco, nem mais um aniversário da editora Erased Tapes. Desta vez, trata-se da apresentação dos temas compostos recentemente para a peça de dança moderna Atomos de Wayne McGregor, brevemente em estreia no teatro Sadler's Wells. Para quem já teve a curiosidade de espreitar o estilo de McGregor, a escolha não é de todo estranha. Estranho talvez tenha sido os AWVFTS, como sublinhou Wiltzie no início do concerto, terem aceitado compor música num tão curto espaço de tempo (3 meses) tendo em conta que Adam Wiltzie "demora 14 anos a compor duas músicas apenas". 

É difícil situarmo-nos num concerto destes, anunciado como um ensaio, um teste, uma experiência antes da estreia da peça final Atomos. Por um lado, os novos temas soam a rascunhos inacabados em estado pré-gravação (é claramente óbvio que este tipo de música precisa do processo meticuloso de estúdio para adquirir forma), e por muito que sejam pérolas ainda em formação, apenas podem ser apreciadas como retalhos num vulnerável esqueleto de ensaio . Por outro lado, embora a nova música destes AWVFTS possua já de si uma qualidade cinematográfica, estes são temas que foram compostos para um banda-sonora, e como tal, são peças de um todo orgânico que deambulam sem o elemento principal para o qual foram pensadas. Por isso tudo, soam a interlúdios colados uns nos outros, disjuntas erupções vulcânicas colocadas entre as obras mais ensaiadas e cristalizadas como We Played Some Open Chords and Rejoiced, for the Earth Had Circled the Sun Yet Another Year ou Steep Hills of Vicodin Tears. 

Não sendo o alinhamento mais estruturado para a mais terna degustação dos minimalismos bonitos, é uma segura amostra das possibilidades do que pode vir a seguir num novo disco: sons ainda mais ancorados na guitarra-drone de Wiltzie; ambiências electrónicas mais artificiais e granuladas; cordas com mais arestas e ligeiramente afastadas da dormência ambiente. No topo destes elementos novos fica no ar uma possibilidade pop remota na versão de Spirit Ditch, em contraponto com a tendência óbvia dos AWVFTS em preencherem a ainda parca produção de originais com o repertório de Arvo Pärt ou Gavin Bryars. Mas algo nos diz que esta voz de Wiltzie vai acontecer apenas uma vez por outra. É uma pena, mas a missão dos AWVFTS neste mundo é outra.