um blogfolio de coisas sonoras

11.10.12

Godspeed You Black Emperor – Allelujah! Don’t Bend! Ascend!


Dois pontos fulcrais a assinalar neste regresso dos GY!BE: a) o querer apontar direcções sonoras furtivas, incutido pelo estatuto de banda referência dentro do estilo pós rock; b) e o uso e abuso de blocos de som que, em peso, nunca se haviam aproximado tanto daquilo a que Michael Gira se tem dedicado a definir nos Swans até ao tutano. É isto que nos diz, também, a capa do disco: um sítio cinzento, poeirento, tempestuoso, de invocações cinematográficas (a); e no meio de tal lugar inóspito, um bloco sólido, cimentado (b).

Logo a abrir, em Mladic, o tema de 19m59s que abre o disco, sabemos que estamos no mundo paralelo dos GY!BE, e uma voz de megafone e reverberada repete-se em ordens para dar lugar a um drone que lentamente toma conta do lugar. Aos 3 minutos e 30 segundos surge a sombra de Gira: um drone alto e dissonante e um carrilhão em crescendo. Se é nisto que podemos ver estes GY!BE como discíplos de uns Swans de My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, é também no que acontece depois disto que encontramos as diferenças. Ao passo que Gira se embriaga na repetição musculada de murros sonoros, os GY!BE soltam-se na expansão e crescendo de um músculo percussivo raro. Isto porque, essencialmente, este lugar é um lugar de guitarras, seja na pontuação solta de sons esquisitos, seja na tentativa de domesticação de uma electricidade selvagem de feedbacks. Mesmo assim há muito mais do que os aproxima do que os separa.

Allelujah! Don’t Bend! Ascend! é também um lugar de ambiguidades. Mladic termina com uma colagem de gente que bate um ritmo de estádio que parece tão emergente de um contexto militar, de manifestação ou mesmo revolucionário, como de uma mera celebração num evento desportivo. Their Helicopters’ Sing é um drone-interlúdio para o lado B de Mladic – We Drift Like Worried Fire – e é aqui que vemos os GY!BE no mapa do típico crescendo pós-rock feito de guitarras ao alto e… “fé em deus”. As cordas são as vozes que, por vezes, não nos fazem esquecer que estas composições são orquestrações meticulosamente articuladas prontas a encher almas de energia. A terceira secção de We Drift é um exemplo perfeito de ascensão rock e Strung Like Lights at thee Printemps Erable é um elevador-drone de som que nos deixa num algures sonhado quando o disco acaba. Mas há algo nos GY!BE que nos deixa sempre a pairar na incerteza: nunca sabemos se estamos numa dimensão feita de Céu ou de Inferno.