E eis que se abre uma das portas centrais do Queen Elisabeth Hall e uma fanfarra de coreto atravessa o corredor, para sair pela porta oposta, como se vinda de um outro lado qualquer, de um outro filme, ou mesmo de uma outra dimensão.No palco está Christian Marclay (pratos) e uma trupe de músicos de renome dentro do circuito da música improvisada – Steve Beresford (piano, “coisas”), John Butcher (saxofone), Alan Tomlinson (trombone) e Mark Sanders (bateria, percussões) – ena tela projecta-se uma sequência colada de retalhos de filmes em que fanfarras desfilam num trovoar militar rítmico. Estamos a falar de Everyday de Christian Marclay, inserido na programação do festival Ether. Um trabalho de 45 minutos, bem ao estilo daquilo que Marclay nos habituou, ensaiado para performances improvisadas, com músicos experimentados, e uma ideia elástica, mas também plástica, de banda-sonora.
Se as imagens cuidadosamente recortadas por Marclay são já em si um desafio ao embrulhar de sensações visuais e auditivas, quando acompanhadas por instrumentos adquirem uma dimensão extra, não só sonoro-musical mas também visual. Por um lado, o som associado às imagens (Marclay chama-lhes “eventos sonoros”) possui o condão de transformar elementos, à partida não-musicias (o bater a uma porta, o som de passos, ruídos diversos), em elementos musicais, numa clara piscadela de olho a conceitos de música concreta. Por outro lado, a exploração sonora de instrumentos musicais para lá do convencional faz precisamente o contrário ao obrigar os músicos a uma procura sónica que se aproxime da imagem. Ora, isto é precisamente o conceito de música para filmes. O que Marclay nos apresenta é uma perspectiva artística em que se colocam a nu os mais diversos processos de composição para o celulóide, sejam eles processos de design sonoro, sejam eles puras sinfonias estereotipadas. E isto tudo em apenas 45 minutos.
Um outro aspecto a salientar assenta na linha divisória entre o diegético e o não-diegético. Marclay transporta a ideia da relação som-imagem dentro do próprio filme para a relação imagem-palco, e é nesta perspectiva que os melhores resultados da performance são conseguidos. O jogo entre as imagens de gira-discos e os sons produzidos pelos músicos é exemplar. Atinge momentos de apreciação infalíveis quando, por exemplo, o levantar da agulha de um disco é acompanhado pelo parar repentino dos músicos. Contudo, o concerto não abusa do truque (Marclay não é de excessos) e, por vezes, é o próprio palco queparece querer entrar dentro do filme. Numa parte em que são concedidos aos músicos momentos individualizados, associados a imagens também individualizadas, existe, por exemplo, uma parte em que Tomlinson se aproxima da tela para uma sequência de violinos criando um jogo de sombras entre o trombone e o arco de violino que é de uma sincronia e plasticidade, por vezes, comovente.
Dito isto, voltamos à parte em que a fanfarra entra no auditório – é uma ideia simples, à Marclay – para dizer que é um momento de outra dimensão. Não apenas no sentido de espectacularidade da surpresa, mas também, e principalmente, porque produz um efeito que vai muito para além da ideia de um filme 3D: é, de facto, como se a banda tivesse saído da tela para, num momento um pouco surrealista, nos dizer que não é preciso ter devaneios excessivamente intelectualizados para ter excelentes ideias. É disto que Marclay percebe. Ideias simples. E tem-nas sempre primeiro do que toda a gente.