
Para muitos, o regresso aos discos dos Dead Can Dance é a maior dávida de 2012. Primeiro porque são “a” banda de culto, quase um movimento religioso, aquela que mais demoradamente habitou num mundo sonoro à parte, ao mesmo tempo obscuro e mundano. Segundo porque o regresso é também sinónimo de uma esperança de renascimento sonoro-poético nesta era de doses digitais industrializadas. Em terceiro lugar, porque põe em prática a essência magmática do duo: a de dar um sopro de vida às naturezas mortas.
Para outros, tal regresso, ao invés de uma dança louca de novos fantasmas ou outros espectros menos exuberantes, pode ser apenas um mero reavivar de peças de museu impecavelmente bem conservadas. Na verdade, aos DCD exige-se, agora (talvez por vivermos numa era de indústria tão diferente), muito mais do que uma colecção de boas canções impecavelmente registadas e produzidas. As expectativas acendem a ideia de renascimento. Mas, depois de um disco como Spiritchaser, que renascer nos podem trazer os DCD?
A voz de Brendan Perry está polida ao máximo. Os elementos que a distinguem estão maturados e solidificados (e isto não é algo assim tão bom). O tema que abre o disco, Children Of The Sun, é uma proposicão para o todo. A voz paira na poesia de sons antigos, cordas e elementos acústicos reverberados, algumas dissonâncias que lhe dá uma emotividade séria e militar. A preocupação com o detalhe e perfeição é sentida do príncipio ao fim: tudo no sítio certo. Mas será que este tudo é certo? Que graça teria antes um trabalho lo-fi com os sons puros ao mesmo tempo arcaicos e esquisitos dos elementos acústicos? Provavelmente muita. Para os DCD talvez nenhuma. Entende-se.
O não uso de sons puros de orquestra, mas sim os de samplers e sintetizadores, projecta os DCD para um passado que sempre se quis futurista. Da mesma forma que a voz de Lisa Gerrard tanto invoca uma dimensão primitiva, medieval e angélica como uma dimensão extra-terrena, por vezes alienígena. Se Anabasis invoca um tropicalismo de paraísos artificiais e Agape uma civilização perdida e distante na mundanização árabe, é voz de Gerrard é o elemento sintético que os une num presente próximo. Mas isto obviamente não significa necessariamente uma nova evangelização. A música dos DCD é de palcos underground e se isso nos anos 80 significava um universo paralelo, hoje é praticamente um mundo em extinção.
Dois apontamentos a realçar: o repititivismo de sons cuja pontuação parece criar uma extensa tentativa de aproximar Spiritchaser de um mais remoto Within The Realm Of A Dying Sun (Amnesia, Kiko) e a ausência das ideias folk de Perry em Toward The Within que claramente acenderam o rastilho definitivo repartiram o grupo. Disto isto, Anastasis soa muito mais a uma revisitação do que a uma continuação. Oxalá seja um apenas passo necessário para outro lugar. Pelo menos é isso que nos parece querer dizer All In Good Time.