um blogfolio de coisas sonoras

9.10.12

Beak – >>


Geoff Barrow foi sempre um apologista de autenticidade e um músico obstinado por sons puros e orgânicos. Isto obviamente quer dizer uma opção: sons analógicos. Era assim nos Portishead e continua assim nos Beak. Contudo, Barrow, ao contrário de muitos que vivem enclausurados na inoperância revivalista, consegue sempre projectar-se (e com ele a música) para uma ideia de futuro e e apresenta-nos trabalhos de uma simplicidade tal que se quer sempre presente. Se nos Portishead as referências eram dispersas, nos Beak elas são claramente ancoradas no repetitivismo e experimentalismo do krautrock.

The Gaol abre-se assim: um baixo distorcido (Billy Fuller) a repetir-se com todo o espaço rock que normalmente é dado a guitarras, uma bateria (Geoff Barrow) de amplificação pura sem travões de complexos progressivos e devaneios electrónicos (Matt Williams) perdidos no tempo e no espaço. Não deixa dúvidas: os Beak querem-se obscuros, (des)orientados por repetitivismos puros e decididos à viagem sonora mecânica. No segundo tema Yatton vão ainda mais longe: o sintetizador analógico confunde-se com o baixo, a bateria surge como uma máquina de ritmos de acústica rica e invulgar e a reverberação digital define uma voz que não se quer concreta nem humana, mas sim um meio-termo entre uma máquina-homem e um homem-máquina, duas entidades bem diferentes. E é isto o que os Beak têm mais próximo de canção para nos dar.

Mas esta sonoridade não se reduz a isto. Há nela algo de re-operatividade de elementos metálicos de uma oxidação extrema, como se fosse possível fazer música com partículas de ferrugem e mecanismos desgovernados (repare-se no som concreto com que abrem Spinning Top). Há ainda um ruído industrial que espreita em Spinning Top e se confirma em Kidney, e uma lentidão desmaiada que invoca o ambiente urbano de uma cidade-fantasma (Eggdog). Outros momentos são mais psicadélicos (Liar), se bem que de uma forma bem concisa, e outros ainda mais futurísticos espaciais (Ladie’s Mile). Mas é em Wulfstan II que nos vemos num universo paralelo onde a agressividade dos sons em contraste com as vozes delirantes, parece querer atrever-se mostrar o que seria dos Can com um Syd Barrett. E isto num contexto sóbrio. Porque à medida que se entra no mundo-Beak, repleto de repetitivismo e sons de subterrâneos e de túneis, a bebedeira sonora deve certamente bater a qualquer com a sequência Elevators-Deserters-Kidney.