Numa era de crise da indústria da música, ver nascer e crescer uma pequena editora independente como a Erased Tapes é algo que tem tanto de contra-cultura como de epopeia. Contam já cinco anos bem feitos e um catálogo de artistas com identidade, um traço sonoro comum e, certamente, uma vontade de agitar águas pouco navegadas. Os três projectos escolhidos para o concerto de celebração no teatro Hackney Empire no passado dia 18, A Winged Victory For The Sullen, Ólafur Arnalds e Nils Frahm, têm certamente algo em comum: compõem música melancólica, triste, introspectiva, e de uma densidade melódica capaz de acender o rastilho fácil de qualquer carpideira. Há quem se refira a esta praia comum como a nova música contemporânea ou, numa perspectiva mais visual, dada a sua apelativa densidade cinemática, como música para filmes imaginários. Mais, esta música, além de possuir um estatuto alternativo underground, encontra-se praticamente no pólo oposto daquilo que nos é dado pela indústria como entretimento, numa estupidificada tentativa sempre pobre de nos convencer (mesmo sendo pop) que o que vendem possui valor cultural e artístico. Contudo, tal estatuto não carrega em si (e ainda bem) o peso de verdades absolutas de raciocínios tautológicos de que aquilo que não é pop não vende ou de que o que é obscuro não possui um carácter optimista. Primeiro porque o concerto esgotou. Segundo, porque é muitas vezes em tal autenticidade que tanto podemos contemplar o silêncio necessário para música de uma beleza triste como um sentido de humor simples entre as canções que por vezes fazem lembrar um espectáculo de stand-up comedy.
Os A Winged Victory For The Sullen (AWVFTS) foram os primeiros a aparecer em palco. Desta vez, acompanhados por um ensemble de onze músicos. “We Played Some Open Chords and Rejoiced, for the Earth Had Circled the Sun Yet Another Year” e “Steep Hills of Vicodin Tears” são composições de uma intensidade certa. Ao vivo, com a guitarra preparada de Adam Wiltzie, parecem crescer ainda mais, chegando mesmo a atingir uma densidade única, muito difícil de capturar em disco. Mas, foi com uma versão de “Jesus Blood Never Failed On Me” e “A Symphony Pathetique” que o concerto atingiu momentos de uma espécie de vertigem sonora em câmara lenta.
Ólafur Arnalds subiu ao palco só e depressa conquistou o público. A salva de palmas que recebeu é já notória de uma plateia seguidora do trabalho do islandês que compõe música demasiado pop para ser clássica e demasiado clássica para ser pop. Com o seu sotaque castiço, e muitas piadas descontraídas pelo meio, convenceu o público a entoar algo que gravou com o seu ipad criando um elemento atmosférico perfeito para a primeira composição. Tudo nele é simples: as melodias de piano, os arranjos para violoncelo e violino, os ritmos samplados nalgumas músicas e a construção das mesmas. É com essa simplicidade que Ólafur nos conquista. Basta olhar para ele.
Nils Frahm é já de uma outra dimensão. Abre o concerto com uma composição de percussão no piano como quem diz “eu não sou bem um pianista normal” e salta entre um piano de cauda, um piano eléctrico, e um sintetizador espacial. As músicas de Frahm não são tão simples como as de Arnalds. Debaixo de um certo minimalismo repetitivo existe uma complexidade rítmica invulgar que prende. Além disso, utiliza processadores de efeitos não tanto para preencher vazios com uma certa atmosfera sonora-paisagística, mas para criar estruturas rítmicas muito subtis a partir de ecos e repetições. Talvez seja aqui que reside a diferença entre o estilo islandês (Arnalds) e o alemão (Frahm). Ambos de temperaturas frias, mas de linguagens diferentes.
O final foi algo apoteótico. Todos os músicos subiram ao palco, e a partir de um sintetizador sequenciado por Frahm, tocaram algo de uma espacialidade imensa, hipnótica, e em ritmo de viagem em todas as direcções. Pelo menos era com essa a ideia que se ficava à medida que os músicos se entregavam ao crescendo natural em colectivo. Como algo que não acaba nunca. Algo sem princípio, meio e fim. E é nisso que acreditamos mesmo tendo havido mesmo um fim e um teatro que se esvazia para uma noite de inverno.