um blogfolio de coisas sonoras

4.10.12

Dirty Three ‎– Toward The Low Sun


Se 444 fosse o número da besta, os 4 minutos e 44 segundos que abrem Toward The Low Sun seriam o hino diabólico do amargurado grito dos infernos. Poucos são aqueles que abrem um disco assim. Furnace Skies é um loop ruidoso de tempestade, um rasgo de renascimento que martela os ouvidos mais bem preparados. Existe nele uma melodia perdida que, mesmo num exercício de piano melancólico (Sometimes I Forget You’ve Gone), nunca chega a pisar terrenos não movediços. A bateria de White continua a varrer tudo pelos ares. Chamemos-lhe tempestade. Caos. Só a terceira (Moon On The Land) se despede. A guitarra de Turner dá-se a conhecer na sua subtil presença sem peias. Turner possui uma graça única quando toca guitarra: tudo parece deambular sem tempo certo: as notas parecem atrasadas, fora do sítio, numa permanente procura primitiva e hesitante. O som eléctrico já lhe é único (Rising Below) e, sem dúvida alguma, o elemento distinto dos Dirty Three. Mais do que o violino de Ellis, arrisca-se, até porque este é também o violino dos Bad Seeds e das bandas-sonoras de faroeste assombrado em parceria com Nick Cave.

Os Dirty Three possuem um dom apreciável de habitarem algures entre as marés selvagens de um mar imenso e uma praia algas meio-paradas a dançarem naquela ondulação deliciosa em câmara lenta. Talvez The Pier seja uma perfeita demonstração disso mesmo: uma bateria nervosa distante, quase militar, uma guitarra eléctrica que parece vir com as ondas, e aquele violino perdido na imensidão, mas portador de um ruído que sabe para onde vai.

Tudo nos Dirty Three é tempestade ou ausência dela. The Rain Song poderia ser algo de deserto, de civilizações perdidas na cavalgada do cowboy solitário, e That Was Was possui a agressividade abstracta feita de poeira e nuvens. Aos 2 minutos e 30 segundos desta há um daqueles acordes abertos que tanto os Dirty Three sabem tecer. É um truque preciso. Na altura certa.

Ashen Snow parece ter Cave ao piano ora não fosse a canção (difícil será não imaginar aqui uma voz: Cat Power?) mais triste que nos é dada a ouvir, numa melancolia que parece querer acender a narrativa para um filme ou uma simples história que assim termina. Numa calmaria já desassombrada por tempestades mas sob a psique das visões fantasmagóricas. You Greet Her Ghost parece querer levar-nos de volta ao início em tons ameaçadores. Talvez não seja nada má ideia.