um blogfolio de coisas sonoras

21.10.12

5 anos de Erased Tapes

Numa era de crise da indústria da música, ver nascer e crescer uma pequena editora independente como a Erased Tapes é algo que tem tanto de contra-cultura como de epopeia. Contam já cinco anos bem feitos e um catálogo de artistas com identidade, um traço sonoro comum e, certamente, uma vontade de agitar águas pouco navegadas. Os três projectos escolhidos para o concerto de celebração no teatro Hackney Empire no passado dia 18, A Winged Victory For The Sullen, Ólafur Arnalds e Nils Frahm, têm certamente algo em comum: compõem música melancólica, triste, introspectiva, e de uma densidade melódica capaz de acender o rastilho fácil de qualquer carpideira. Há quem se refira a esta praia comum como a nova música contemporânea ou, numa perspectiva mais visual, dada a sua apelativa densidade cinemática, como música para filmes imaginários. Mais, esta música, além de possuir um estatuto alternativo underground, encontra-se praticamente no pólo oposto daquilo que nos é dado pela indústria como entretimento, numa estupidificada tentativa sempre pobre de nos convencer (mesmo sendo pop) que o que vendem possui valor cultural e artístico. Contudo, tal estatuto não carrega em si (e ainda bem) o peso de verdades absolutas de raciocínios tautológicos de que aquilo que não é pop não vende ou de que o que é obscuro não possui um carácter optimista. Primeiro porque o concerto esgotou. Segundo, porque é muitas vezes em tal autenticidade que tanto podemos contemplar o silêncio necessário para música de uma beleza triste como um sentido de humor simples entre as canções que por vezes fazem lembrar um espectáculo de stand-up comedy.
Os A Winged Victory For The Sullen (AWVFTS) foram os primeiros a aparecer em palco. Desta vez, acompanhados por um ensemble de onze músicos. “We Played Some Open Chords and Rejoiced, for the Earth Had Circled the Sun Yet Another Year” e “Steep Hills of Vicodin Tears” são composições de uma intensidade certa. Ao vivo, com a guitarra preparada de Adam Wiltzie, parecem crescer ainda mais, chegando mesmo a atingir uma densidade única, muito difícil de capturar em disco. Mas, foi com uma versão de “Jesus Blood Never Failed On Me” e “A Symphony Pathetique” que o concerto atingiu momentos de uma espécie de vertigem sonora em câmara lenta.

Ólafur Arnalds subiu ao palco só e depressa conquistou o público. A salva de palmas que recebeu é já notória de uma plateia seguidora do trabalho do islandês que compõe música demasiado pop para ser clássica e demasiado clássica para ser pop. Com o seu sotaque castiço, e muitas piadas descontraídas pelo meio, convenceu o público a entoar algo que gravou com o seu ipad criando um elemento atmosférico perfeito para a primeira composição. Tudo nele é simples: as melodias de piano, os arranjos para violoncelo e violino, os ritmos samplados nalgumas músicas e a construção das mesmas. É com essa simplicidade que Ólafur nos conquista. Basta olhar para ele.

Nils Frahm é já de uma outra dimensão. Abre o concerto com uma composição de percussão no piano como quem diz “eu não sou bem um pianista normal” e salta entre um piano de cauda, um piano eléctrico, e um sintetizador espacial. As músicas de Frahm não são tão simples como as de Arnalds. Debaixo de um certo minimalismo repetitivo existe uma complexidade rítmica invulgar que prende. Além disso, utiliza processadores de efeitos não tanto para preencher vazios com uma certa atmosfera sonora-paisagística, mas para criar estruturas rítmicas muito subtis a partir de ecos e repetições. Talvez seja aqui que reside a diferença entre o estilo islandês (Arnalds) e o alemão (Frahm). Ambos de temperaturas frias, mas de linguagens diferentes.

O final foi algo apoteótico. Todos os músicos subiram ao palco, e a partir de um sintetizador sequenciado por Frahm, tocaram algo de uma espacialidade imensa, hipnótica, e em ritmo de viagem em todas as direcções. Pelo menos era com essa a ideia que se ficava à medida que os músicos se entregavam ao crescendo natural em colectivo. Como algo que não acaba nunca. Algo sem princípio, meio e fim. E é nisso que acreditamos mesmo tendo havido mesmo um fim e um teatro que se esvazia para uma noite de inverno.

Secret Side



  1. Nico - Secret Side
  2. Pink Floyd - A Saucerful Of Secrets
  3. Leonard Cohen - In My Secret Life
  4. David Bowie - The Secret Life Of Arabia
  5. Sonic Youth - Secret Girls
  6. Michael Nyman - Big My Secret
  7. Brian Eno - The Secret Place
  8. Do Make Say Think - Outer Inner & Secret
  9. Yo La Tengo - All Your Secrets
  10. Mogwai - Secret Pint

16.10.12

Friendly Ghosts



  1. Daniel Johnston - Casper the Friendly Ghost
  2. Patti Smith - Ghost Dance
  3. Sparklehorse - Ghost In The Sky
  4. Suicide - Ghost Rider
  5. The Gun Club - Ghost On The Highway
  6. John Cale - Ghost Story
  7. David Sylvian - Ghosts
  8. Radiohead - Give Up The Ghost
  9. Wyatt/ Atzmon/ Stephen - The Ghost Within
  10. Múm - The Ghosts You Draw on My Back

Christian Marclay Everyday

E eis que se abre uma das portas centrais do Queen Elisabeth Hall e uma fanfarra de coreto atravessa o corredor, para sair pela porta oposta, como se vinda de um outro lado qualquer, de um outro filme, ou mesmo de uma outra dimensão.No palco está Christian Marclay (pratos) e uma trupe de músicos de renome dentro do circuito da música improvisada – Steve Beresford (piano, “coisas”), John Butcher (saxofone), Alan Tomlinson (trombone) e Mark Sanders (bateria, percussões) – ena tela projecta-se uma sequência colada de retalhos de filmes em que fanfarras desfilam num trovoar militar rítmico. Estamos a falar de Everyday de Christian Marclay, inserido na programação do festival Ether. Um trabalho de 45 minutos, bem ao estilo daquilo que Marclay nos habituou, ensaiado para performances improvisadas, com músicos experimentados, e uma ideia elástica, mas também plástica, de banda-sonora.

Se as imagens cuidadosamente recortadas por Marclay são já em si um desafio ao embrulhar de sensações visuais e auditivas, quando acompanhadas por instrumentos adquirem uma dimensão extra, não só sonoro-musical mas também visual. Por um lado, o som associado às imagens (Marclay chama-lhes “eventos sonoros”) possui o condão de transformar elementos, à partida não-musicias (o bater a uma porta, o som de passos, ruídos diversos), em elementos musicais, numa clara piscadela de olho a conceitos de música concreta. Por outro lado, a exploração sonora de instrumentos musicais para lá do convencional faz precisamente o contrário ao obrigar os músicos a uma procura sónica que se aproxime da imagem. Ora, isto é precisamente o conceito de música para filmes. O que Marclay nos apresenta é uma perspectiva artística em que se colocam a nu os mais diversos processos de composição para o celulóide, sejam eles processos de design sonoro, sejam eles puras sinfonias estereotipadas. E isto tudo em apenas 45 minutos.

Um outro aspecto a salientar assenta na linha divisória entre o diegético e o não-diegético. Marclay transporta a ideia da relação som-imagem dentro do próprio filme para a relação imagem-palco, e é nesta perspectiva que os melhores resultados da performance são conseguidos. O jogo entre as imagens de gira-discos e os sons produzidos pelos músicos é exemplar. Atinge momentos de apreciação infalíveis quando, por exemplo, o levantar da agulha de um disco é acompanhado pelo parar repentino dos músicos. Contudo, o concerto não abusa do truque (Marclay não é de excessos) e, por vezes, é o próprio palco queparece querer entrar dentro do filme. Numa parte em que são concedidos aos músicos momentos individualizados, associados a imagens também individualizadas, existe, por exemplo, uma parte em que Tomlinson se aproxima da tela para uma sequência de violinos criando um jogo de sombras entre o trombone e o arco de violino que é de uma sincronia e plasticidade, por vezes, comovente.

Dito isto, voltamos à parte em que a fanfarra entra no auditório  – é uma ideia simples, à Marclay – para dizer que é um momento de outra dimensão. Não apenas no sentido de espectacularidade da surpresa, mas também, e principalmente, porque produz um efeito que vai muito para além da ideia de um filme 3D: é, de facto, como se a banda tivesse saído da tela para, num momento um pouco surrealista, nos dizer que não é preciso ter devaneios excessivamente intelectualizados para ter excelentes ideias. É disto que Marclay percebe. Ideias simples. E tem-nas sempre primeiro do que toda a gente.

11.10.12

Godspeed You Black Emperor – Allelujah! Don’t Bend! Ascend!


Dois pontos fulcrais a assinalar neste regresso dos GY!BE: a) o querer apontar direcções sonoras furtivas, incutido pelo estatuto de banda referência dentro do estilo pós rock; b) e o uso e abuso de blocos de som que, em peso, nunca se haviam aproximado tanto daquilo a que Michael Gira se tem dedicado a definir nos Swans até ao tutano. É isto que nos diz, também, a capa do disco: um sítio cinzento, poeirento, tempestuoso, de invocações cinematográficas (a); e no meio de tal lugar inóspito, um bloco sólido, cimentado (b).

Logo a abrir, em Mladic, o tema de 19m59s que abre o disco, sabemos que estamos no mundo paralelo dos GY!BE, e uma voz de megafone e reverberada repete-se em ordens para dar lugar a um drone que lentamente toma conta do lugar. Aos 3 minutos e 30 segundos surge a sombra de Gira: um drone alto e dissonante e um carrilhão em crescendo. Se é nisto que podemos ver estes GY!BE como discíplos de uns Swans de My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, é também no que acontece depois disto que encontramos as diferenças. Ao passo que Gira se embriaga na repetição musculada de murros sonoros, os GY!BE soltam-se na expansão e crescendo de um músculo percussivo raro. Isto porque, essencialmente, este lugar é um lugar de guitarras, seja na pontuação solta de sons esquisitos, seja na tentativa de domesticação de uma electricidade selvagem de feedbacks. Mesmo assim há muito mais do que os aproxima do que os separa.

Allelujah! Don’t Bend! Ascend! é também um lugar de ambiguidades. Mladic termina com uma colagem de gente que bate um ritmo de estádio que parece tão emergente de um contexto militar, de manifestação ou mesmo revolucionário, como de uma mera celebração num evento desportivo. Their Helicopters’ Sing é um drone-interlúdio para o lado B de Mladic – We Drift Like Worried Fire – e é aqui que vemos os GY!BE no mapa do típico crescendo pós-rock feito de guitarras ao alto e… “fé em deus”. As cordas são as vozes que, por vezes, não nos fazem esquecer que estas composições são orquestrações meticulosamente articuladas prontas a encher almas de energia. A terceira secção de We Drift é um exemplo perfeito de ascensão rock e Strung Like Lights at thee Printemps Erable é um elevador-drone de som que nos deixa num algures sonhado quando o disco acaba. Mas há algo nos GY!BE que nos deixa sempre a pairar na incerteza: nunca sabemos se estamos numa dimensão feita de Céu ou de Inferno.

3 parts



the rock
The Rolling Stones - Doom And Gloom
Sharon Van Etten - Magic Chords
Neil Young & Crazy Horse - Ramada Inn
the other rock
Godspeed You! Black Emperor - Strung Like Lights At Thee Printem
Swans - Avatar
Scott Walker - Bish Bosch (Album Trailer)
Do Make Say Think - The Universe!
Spacemen 3 - Revolution
Dirty Three - Rising Below
the end
Nils Frahm - Re

9.10.12

Beak – >>


Geoff Barrow foi sempre um apologista de autenticidade e um músico obstinado por sons puros e orgânicos. Isto obviamente quer dizer uma opção: sons analógicos. Era assim nos Portishead e continua assim nos Beak. Contudo, Barrow, ao contrário de muitos que vivem enclausurados na inoperância revivalista, consegue sempre projectar-se (e com ele a música) para uma ideia de futuro e e apresenta-nos trabalhos de uma simplicidade tal que se quer sempre presente. Se nos Portishead as referências eram dispersas, nos Beak elas são claramente ancoradas no repetitivismo e experimentalismo do krautrock.

The Gaol abre-se assim: um baixo distorcido (Billy Fuller) a repetir-se com todo o espaço rock que normalmente é dado a guitarras, uma bateria (Geoff Barrow) de amplificação pura sem travões de complexos progressivos e devaneios electrónicos (Matt Williams) perdidos no tempo e no espaço. Não deixa dúvidas: os Beak querem-se obscuros, (des)orientados por repetitivismos puros e decididos à viagem sonora mecânica. No segundo tema Yatton vão ainda mais longe: o sintetizador analógico confunde-se com o baixo, a bateria surge como uma máquina de ritmos de acústica rica e invulgar e a reverberação digital define uma voz que não se quer concreta nem humana, mas sim um meio-termo entre uma máquina-homem e um homem-máquina, duas entidades bem diferentes. E é isto o que os Beak têm mais próximo de canção para nos dar.

Mas esta sonoridade não se reduz a isto. Há nela algo de re-operatividade de elementos metálicos de uma oxidação extrema, como se fosse possível fazer música com partículas de ferrugem e mecanismos desgovernados (repare-se no som concreto com que abrem Spinning Top). Há ainda um ruído industrial que espreita em Spinning Top e se confirma em Kidney, e uma lentidão desmaiada que invoca o ambiente urbano de uma cidade-fantasma (Eggdog). Outros momentos são mais psicadélicos (Liar), se bem que de uma forma bem concisa, e outros ainda mais futurísticos espaciais (Ladie’s Mile). Mas é em Wulfstan II que nos vemos num universo paralelo onde a agressividade dos sons em contraste com as vozes delirantes, parece querer atrever-se mostrar o que seria dos Can com um Syd Barrett. E isto num contexto sóbrio. Porque à medida que se entra no mundo-Beak, repleto de repetitivismo e sons de subterrâneos e de túneis, a bebedeira sonora deve certamente bater a qualquer com a sequência Elevators-Deserters-Kidney.

Break The Black Ice



  1. Death in June - Break the Black Ice
  2. Death In June - Little Black Angel
  3. Death In June - Come Before Christ And Murder Love
  4. Death in June - But what ends when the symbols shatter?
  5. Death In June - The Accidental Protégé
  6. Death In June - Hail! The White Grain
  7. Death in June - Heaven Street
  8. Death in June - The Honour of Silence
  9. Death in June - All Pigs Must Die
  10. Death In June - The Giddy Edge Of Light

7.10.12

Dead Can Dance – Anastasis


Para muitos, o regresso aos discos dos Dead Can Dance é a maior dávida de 2012. Primeiro porque são “a” banda de culto, quase um movimento religioso, aquela que mais demoradamente habitou num mundo sonoro à parte, ao mesmo tempo obscuro e mundano. Segundo porque o regresso é também sinónimo de uma esperança de renascimento sonoro-poético nesta era de doses digitais industrializadas. Em terceiro lugar, porque põe em prática a essência magmática do duo: a de dar um sopro de vida às naturezas mortas.

Para outros, tal regresso, ao invés de uma dança louca de novos fantasmas ou outros espectros menos exuberantes, pode ser apenas um mero reavivar de peças de museu impecavelmente bem conservadas. Na verdade, aos DCD exige-se, agora (talvez por vivermos numa era de indústria tão diferente), muito mais do que uma colecção de boas canções impecavelmente registadas e produzidas. As expectativas acendem a ideia de renascimento. Mas, depois de um disco como Spiritchaser, que renascer nos podem trazer os DCD?

A voz de Brendan Perry está polida ao máximo. Os elementos que a distinguem estão maturados e solidificados (e isto não é algo assim tão bom). O tema que abre o disco, Children Of The Sun, é uma proposicão para o todo. A voz paira na poesia de sons antigos, cordas e elementos acústicos reverberados, algumas dissonâncias que lhe dá uma emotividade séria e militar. A preocupação com o detalhe e perfeição é sentida do príncipio ao fim: tudo no sítio certo. Mas será que este tudo é certo? Que graça teria antes um trabalho lo-fi com os sons puros ao mesmo tempo arcaicos e esquisitos dos elementos acústicos? Provavelmente muita. Para os DCD talvez nenhuma. Entende-se.

O não uso de sons puros de orquestra, mas sim os de samplers e sintetizadores, projecta os DCD para um passado que sempre se quis futurista. Da mesma forma que a voz de Lisa Gerrard tanto invoca uma dimensão primitiva, medieval e angélica como uma dimensão extra-terrena, por vezes alienígena. Se Anabasis invoca um tropicalismo de paraísos artificiais e Agape uma civilização perdida e distante na mundanização árabe, é voz de Gerrard é o elemento sintético que os une num presente próximo. Mas isto obviamente não significa necessariamente uma nova evangelização. A música dos DCD é de palcos underground e se isso nos anos 80 significava um universo paralelo, hoje é praticamente um mundo em extinção.

Dois apontamentos a realçar: o repititivismo de sons cuja pontuação parece criar uma extensa tentativa de aproximar Spiritchaser de um mais remoto Within The Realm Of A Dying Sun (Amnesia, Kiko) e a ausência das ideias folk de Perry em Toward The Within que claramente acenderam o rastilho definitivo repartiram o grupo. Disto isto, Anastasis soa muito mais a uma revisitação do que a uma continuação. Oxalá seja um apenas passo necessário para outro lugar. Pelo menos é isso que nos parece querer dizer All In Good Time.

Face To The Sky



  1. John Cale - Face To The Sky
  2. David Byrne & St. Vincent - Who
  3. Tindersticks - Show Me Everything
  4. Soulsavers - Longest Day
  5. Calexico - Sinner in the Sea
  6. Patti Smith - This Is The Girl
  7. Leonard Cohen - Come Healing 
  8. Dead Can Dance - Amnesia
  9. The Dirty Three - Rain Song
  10. Lambchop - Gone Tomorrow

4.10.12

Dying Slowly



  1. Tindersticks - Dying Slowly
  2. Lambchop - If Not I'll Just Die
  3. Smog - Rock Bottom Riser
  4. Low - Shame
  5. Dirty Three - I Remember A Time When Once You Used To Love Me
  6. Mercury Rev - Spiders & Flies
  7. David Sylvian - I Should Not Dare
  8. Red House Painters - Drop
  9. Sparklehorse - Comfort Me
  10. Yo La Tengo - More Stars Than There Are in Heaven

Dirty Three ‎– Toward The Low Sun


Se 444 fosse o número da besta, os 4 minutos e 44 segundos que abrem Toward The Low Sun seriam o hino diabólico do amargurado grito dos infernos. Poucos são aqueles que abrem um disco assim. Furnace Skies é um loop ruidoso de tempestade, um rasgo de renascimento que martela os ouvidos mais bem preparados. Existe nele uma melodia perdida que, mesmo num exercício de piano melancólico (Sometimes I Forget You’ve Gone), nunca chega a pisar terrenos não movediços. A bateria de White continua a varrer tudo pelos ares. Chamemos-lhe tempestade. Caos. Só a terceira (Moon On The Land) se despede. A guitarra de Turner dá-se a conhecer na sua subtil presença sem peias. Turner possui uma graça única quando toca guitarra: tudo parece deambular sem tempo certo: as notas parecem atrasadas, fora do sítio, numa permanente procura primitiva e hesitante. O som eléctrico já lhe é único (Rising Below) e, sem dúvida alguma, o elemento distinto dos Dirty Three. Mais do que o violino de Ellis, arrisca-se, até porque este é também o violino dos Bad Seeds e das bandas-sonoras de faroeste assombrado em parceria com Nick Cave.

Os Dirty Three possuem um dom apreciável de habitarem algures entre as marés selvagens de um mar imenso e uma praia algas meio-paradas a dançarem naquela ondulação deliciosa em câmara lenta. Talvez The Pier seja uma perfeita demonstração disso mesmo: uma bateria nervosa distante, quase militar, uma guitarra eléctrica que parece vir com as ondas, e aquele violino perdido na imensidão, mas portador de um ruído que sabe para onde vai.

Tudo nos Dirty Three é tempestade ou ausência dela. The Rain Song poderia ser algo de deserto, de civilizações perdidas na cavalgada do cowboy solitário, e That Was Was possui a agressividade abstracta feita de poeira e nuvens. Aos 2 minutos e 30 segundos desta há um daqueles acordes abertos que tanto os Dirty Three sabem tecer. É um truque preciso. Na altura certa.

Ashen Snow parece ter Cave ao piano ora não fosse a canção (difícil será não imaginar aqui uma voz: Cat Power?) mais triste que nos é dada a ouvir, numa melancolia que parece querer acender a narrativa para um filme ou uma simples história que assim termina. Numa calmaria já desassombrada por tempestades mas sob a psique das visões fantasmagóricas. You Greet Her Ghost parece querer levar-nos de volta ao início em tons ameaçadores. Talvez não seja nada má ideia.