um blogfolio de coisas sonoras

6.2.12

LONGPLAYER: o loop milenar

Talvez não exista, hoje, melhor conceito do que o do Longplayer para nos fazer reflectir nas possibilidades de uma dimensão-tempo na esfera da composição musical e da arte sonora. São exactamente mil anos de ininterrupta composição sonora. Uma longevidade que certamente ultrapassa mais de uma dezena de gerações e que se tem (de)terminada numa data tão longínqua - quase impensável, quase imortal - cuja maior preocupação se centra, sem dúvida, não na possibilidade teórica de execução da mesma, mas sim na sua continuidade institucional e geracional.

O Longplayer iniciou a sua tarefa árdua no último dia 1999 e deve dar-se por cumprido no primeiro dia do ano 3000. Um ciclo (ou um loop, como queiram) de mil anos. Neste momento (aquando da escrita deste texto) ainda é uma criança, ou porventura nem sequer isso. Conta apenas cerca de doze anos, onze dias e seis horas. Avança, assim, muito vagarosamente para uma meta que nos ultrapassa. Seja qual for a hora em que o ouvimos (pode ser ouvido online na página oficial http://longplayer.org/). Por isso, não será de todo difícil perceber que os próprios sons se diluem no tempo em que ele se programa e vai programando. Daí talvez o carácter meditativo na escolha de taças tibetanas como instrumentos. Notas puras, em câmara lenta, abstractas, livres, pensadas numa sequência que possui tanto de meditação como de algo difícil de descrever e que se esconde para além daquilo que nos é dado numa era de extrema celeridade. O contraste chega a ser assustador. Além disso, estar num edifício que outrora fora um farol - em Trinity Buoy Whraf, em Londres - a ver a cidade através daquela janela imensa, com uma banda sonora de puro adormecimento meditativo, é como mergulhar em pensamentos estranhos e desconhecidos. Tudo se torna lento como num sonho.

Mil anos são dez séculos. Dez vezes cem. Apesar desta decomposição divisória sabemos muito bem que em apenas um século muita coisa muda. Toda uma civilização muda. Passam a existir outras concepções, outras filosofias, ideias de futuro cada vez mais potenciadas por avanços tecnológicos globais. Se pensarmos que há mil anos tudo seria anacrónico para um homem de hoje, com que percepção pode ser entendida uma composição de hoje pelo homem do futuro, que por muito que se gere sem repetições é sempre imutável? Com que ouvidos o homem do futuro vai escutar estas formas sonoras primitivas e arcaicas? Que significado terão estes sons para ele? Que conceitos de música e som terá o homem do futuro que o façam entender a lentidão de uma peça ao mesmo tempo generativa e geracional?

Talvez o conceptualizador Jem Finer tenha a resposta, ou algo que se pareça até com uma profecia. Outrora membro dos Pogues (!), Finer estabeleceu paralelos entre o conceito artístico e o funcionamento orbital dos planetas - talvez resida aqui também a razão para a escolha das taças tibetanas, ricas em harmónicos e em desvanecimentos sonoros etéreos - e com o impulso da Artangel e colaborações de nomes como David Toop, Brian Eno ou Michael Morris, estudou o conceito ao ponto de este poder ser continuado das mais diversas formas, seja através de computadores, seja através de uma pauta gráfica para seis instrumentistas e 234 taças tibetanas. Assim sendo, com uma planta tão bem delineada e uma estrutura temporal tão alicerçada quanto possível, será tudo uma questão de pura sobrevivência. Mas são sempre mil anos. Estaremos aqui? Estará a música aqui? Tudo se torna um enigma. Se há alguma música futurista neste planeta de hoje, é esta.