um blogfolio de coisas sonoras

13.2.12

Respiga: pequenos festivais

Eu nunca fui a Glastonbury e nem sei se quero alguma vez ir. Fui aoBig Chill em 2010, um festival considerado pequeno, e fiquei absolutamente de rastos. De que me lembro? Do concerto fabuloso dos Massive Attack, da frieza estática dos Explosions In The Sky, do quão era bonita a namorada do Thom Yorke (sim, o meu bilhete dava acesso ao backstage) e da viagem de comboio com uma suposta vaca-falante do big brother. Outras memórias são demasiado vagas e dispersam-se facilmente na enormidade do espaço. Não volto. Nem que me paguem outra vez.

No entanto, há festivais que não esqueço. Os primeiros que fui emParedes de Coura, na segunda metade dos anos 90, onde vi pela primeira vez The Flaming Lips, Red House Painters, Tindersticks e The Divine Comedy, e oCarviçais Rock onde, já no século 21, se podia estacionar o carro ao lado da tenda. Vi um grande concerto dos Spiritualized na fila da frente. Com o Adolfo Canibal. Ali, a ver e ouvir tudo. Até quase o dia da montanha nascer entre o fumo dos incêndios e todos os borracholas a cairem para o lado. Apocalíptico.

Desde então a procura do pequeno tem sido uma frágil ideia quando confrontada com a ideia de ir ver este ou aquele concerto. Mesmo assim é muito difícil de dizer não a pequenos festivais que se apresentam com um cartaz interessante a preços convidativos. Mesmo que a nossa experiência se assemelhe mais a uma feira internacional na exponor do que a um concerto propriamente dito. Talvez seja essa a função dos festivais: dar uma amostra. Tal é o caso do Field Dayem apenas um dia de picnic no Victoria Park. No ano passado deu para ver Anika, John Cale, Anna Calvi, Sun Ra Arkestra, Sea And Cake, Mark Kozelek, Electrelane, Wild Beasts, Junip, isto não acaba? Quantas outras não vi? Mesmo com um calendário de horas exactas nos palcos, tornou-se impossível ir a todas. Algumas ficaram-se pelo picar de ponto de uma música apenas. Não tarda muito tempo e iremos apenas junto ao palco para recolhermos a nossa amostra em mp3, via wireless ou outro tipo de merchandising barato, na exacta medida em que enchemos um saco de canetas, calendários e porta-chaves em feiras da exponor.

Talvez o Field Day não seja suficientemente pequeno. É-o comparativamente. Se sairmos da ilha e formos até à península encontramos dois bons exemplos. O Milhões de Festa em Barcelos, Portugal, e o Tanned Tin em Castelló, Espanha. O primeiro é feito para putos de uma vanguarda rock e rebusca-se todo na procura de uma cena alternativa pura. A imagem de marca é uma DIY urbana de garagem. Sem complexos. Muitos concertos mas, alto!, nenhum a acontecer ao mesmo tempo. Assim não se perdem nomes como Electrelane, Vivian Girls, Zu, Foot Village ou Bob Log III.

O Tanned Tin, por sua vez, é um festival de inverno num teatro luxuoso antigo. Numa altura do ano de poucos concertos dá-se ao ‘luxo’ de apresentar nomes que são do melhor que há na cena independente. Alguns desses nomes são já animais em extinção: Migala, Labradford, Mark Eitzel. Outros é quase como se estivessem: Piano Magic, Do Make Say Think, American Analog Set, Dakota Suite ou Spain. Mas, o que se destaca mesmo, num festival destes, é a gente estar sentada de ouvidos bem abertos. Sem pipocas. E é assim mesmo que deve ser.