um blogfolio de coisas sonoras

7.2.12

A Winged Victory For The Sullen - música para corações quebrados e gente morta

Quando Adam Bryanbaum Wiltzie, de copo de whisky na mão, se chega ao microfone para dizer que as sete músicas que fazem o concerto dos A Winged Victory For The Sullen são músicas para corações despedaçados e gente morta, um esperado calafrio dá lugar a sorrisos. Talvez pelo tom de voz, ou pela ânsia de ouvir a coisa ao vivo, ou por a plateia ser rica em fitoplâncton melancólico a ambivalência negra daquelas parcas palavras ressoaram na sala ampla da Cecil Sharp House como um acto de conforto. O disco de estreia dos AWVFTS é, de facto, algo que desce aos sentimentos mais profundos. Pouco sabemos de Dustin O'Halloran, mas sabemos que o disco foi gravado na pós-quebra conjugal de Adam Wiltzie e Christina Vantzou. Mais do que um rompimento típico entre casais foi (talvez) também um rompimento artístico de um projecto chamado The Dead Texan. Nisto, a preencher um cenário de melancolia, a morte de Mark Linkous aka Sparklehorse, amigo e companheiro de palco (os Dead Texan foram banda de suporte em 2007) a picar o ponto da referência a gente morta (Linkous cometeu suicídio em 2010). Daí este novo projecto do carismático cara metade dos Stars Of The Lid ser mais um mergulho em águas profundas, ora não fosse Adam W um explorador de sons de guitarra que não são sons próprios de uma guitarra; são antes, numa descrição possível, erupções ondulantes em câmara lenta de espuma sonora abstracta. Um espuma que parece ser sempre a mesma em todos os projectos (curiosamente, sempre duos): Stars Of The Lid, The Dead Texan, A Winged Victory For The Sullen, Aix Em Klemm e osSleepingdog.


Sleepingdog

Chantal Acda possui uma voz frágil, algo que às vezes chega a ser sussurro. Existe nela uma melancolia triste que abre portas de uma certa dor de lã. Os sons lentos de piano e guitarra são como uma teia, algo que liga a fragilidade de uma voz quebradiça aos distantes gélidos arranjos de Adam W.. A magia entre ambos aconteceu pela primeira vez na última faixa do disco homónimo dos The Dead Texan, The Strugle. Desde então gravaram três discos: Naked In A Clean Bed (2006), Polar Life (2008) e With Our Heads In The Clouds And Our Hearts In The Fields (2011). Em palco existe algo que os separa, ou melhor, algo que entrega cada um deles à sua própria solidão. A cara de Chantal transforma-se com sombras e luz, e Adam W parece um coveiro-fantasma condutor de orquestrações eléctricas malditas. São, acima de tudo, canções simples, palavras simples. Assusta perceber que, à medida que o concerto avança, a voz de Chantal não é assim tão quebradiça. Nota-se à medida que The Sun Sinks In The Sea, a última música do concerto, se decompõe e desvanece. Primeiro sem as ambiências fortes de guitarra. Depois sem os minimalismos de piano. Fica a voz. Entregue ao silêncio. Num desamparo que só as coisas tristes são capazes de ter.


AWVFTS

A música dos AWVFTS não precisa de palavras. Um título como We Played Some Open Chords And Rejoiced, For The Earth Had Circled The Sun Yet Another Year já diz muito. Já diz que chegue. Dustin O'Halloran no piano. Adam Wiltzie nas infinitas possibilidades de uma guitarra eléctrica. No centro, um violoncelo e dois violinos. Tocados por mulheres. Se em disco a lentidão é algo perceptível, em palco tudo se torna visível em câmara lenta. Os movimentos são lentos. Mesmo quando os músicos não tocam. E existe graciosidade nisto. Curioso também o movimento ondulatório com que os corpos se comunicam, assinalando o tempo certo das peças. Existem também olhares triangulados que dizem muito mais do que uma pauta, uma espécie de dança invisível apenas possível entre aquele que cria e aqueles que querem entender e transmitir o que é criado, naquela hora, naquele momento. Existe também algo de transcendente Aquele transcendente que Adam W fala ao descrever tão bem uma cidade como Londres, onde tudo é correria e confuso, mas na qual existe sempre um lugar divergente, feito de silêncio e de uma lentidão suprema, onde se acertam os relógios e se ajusta o tempo gasto. A própria fila para entrar no Cecil Sharp House antes do concerto era já uma fila em silêncio, uma linha de gente entre a escuridão e a luz fosca de um candeeiro. Lá dentro, um salão rectangular de tecto e de janelas altas, a dar a impressão de ser uma igreja com cortinas vermelhas. Um espaço sagrado. À medida que o concerto avança as músicas vão tendo uma profundidade cada vez maior. Quando chegam a Steep Hills Of Vicodin Tears é sabido que já não há mais nada a dizer, que o melhor é mesmo parar por ali porque as lágrimas estão, de facto,suspensas por Vicodin, e podem cair a qualquer momento. Não caem porque o som que sai daquelas máquinas eléctricas ao qual as pessoas normalmente chamam guitarra eléctrica é de uma sonoridade quase vulcânica. Algo que não se sente em disco. Algo que apenas se percebe quando o salão treme e as cinzas sonoras se vão formando naquilo que Adam W, no início, descreveu como música para corações quebrados e gente morta.

No entanto, porque as sete músicas de um disco nem sempre chegam, presenteiam-nos com algo já habitual nos concertos dos Stars Of The Lid: Fratres de Arvo Pärt, para um violoncelo, dois violinos, um sintetizador com som de piano, e uma guitarra eléctrica com som de uma coisa qualquer. Pois claro, estes AWVFTS também são uma banda com um som de uma outra coisa qualquer.