Não é um panfleto qualquer. Foi encontrado, como muitos outros, no banco traseiro de um autocarro. Mas neste caso seria praticamente impossível ignorar os desenhos de um cigarro (de droga, provavelmente), uma folha de canabis, canecas e latas de cerveja, vinho, e aquilo que parecem cds, auscultadores e figuras musicais. Em baixo uns dizeres promissores:
“I want to tell how God delivered me from Rock music and alcohol”

Deus, a velha figura, o salvador da alma, mais uma vez interveio num caso concreto. O tipo chama-se Philip Livingston e torna-se realmente difícil de imaginar como é que um tipo de camisa aos quadrados azuis e brancos, e cara de empregado de escritório, fora outrora, enfim, um marginal punk. Aos quinze anos começou a ouvir música. Mas o tipo de música pela qual se apaixonou foi algo absolutamente desviante. Dois nomes a saber: Sex Pistols e AC/DC. Os primeiros levaram-no a ler palavrões e blasfémias:
“I began to listen to a punk rock group called the Sex Pistols, and their lyrics included much swearing and blasphemy”.
Quanto mais os ouvia, mais os seguia. Começou por vestir-se e comportar-se como eles. Depois começou a fumar e a beber. E não tardou muito para comprar o disco de uma banda de heavy metal, com letras e sons satãnicos, chamada AC/DC. Eis alguns exemplos de ferramentas diabólicas para comportamentos desviantes: “Hells Bells”, “Hell Ain’t A Bad Place To Be” e “Highway To Hell”. Mas não ficou por aqui. Seguiram-se outras bandas (também com nomes diabólicos), os Black Sabath, os Judas Priest e os Iron Maiden. Aquilo que parecia uma tendência para o mau gosto era afinal um convite para os caminhos trilhados pelo diabo:

“These groups, and many more, were Satanically inspired and the lyrics suggested suicide, rebellion to parents, witchcraft, murder, and blasphemy against God”
O resto não é difícil de imaginar. Enterrou-se na droga até ao pescoço, perdeu o emprego, perdeu a namorada, tudo. Entretanto começou a ir à missa, deixou de ouvir rock e salvou-se. Um pouco daquilo que aconteceu com o Nick Cave. Mas, felizmente, este anda a espalhar bons discos e não anda a espalhar panfletos de carácter religioso duvidoso.
Chegados a este ponto levantam-se questões:
1. Como é que se pode explicar tamanha adoração no mundo do rock, ou melhor, no mundo da pop (aqui refere-se pop como música popular, excluindo-se apenas o jazz e a clássica), em que, muitas vezes, os artistas são também eles figuras idolátricas e os concertos rituais e celebrações espirituais?
2. Que peso tem o carácter religioso presente em bandas de reconhecido bom gosto como Spiritualized (onde abundam as palavras “lord” e “babe”), os americanos Low (Mimi Parker e Alan Sparhawk são mormons), ou o mafarrico Nick Cave (que tanto está a cantar brasileiradas como Foi Na Cruz como a dar pontapés em tudo aquilo que mexe e cheira a incenso)?
3. Até que ponto a música popular e a religião andam de mãos dadas e se confundem e em que medida é o facto de o diabo (na sua simbologia profana) habitar o mundo religioso se reflecte na cultura musical popular? Quemensagens existem em ambos?
Estas são apenas algumas hóstias.