Tudo aquilo que eu queria ouvir era o vento nas árvores. O vento nas árvores como ondas de mar na praia. Sentado à mesa, de olhos postos no prato, talheres pousados na borda, a ouvir o mar lá fora. Mar que não é mar. Mar que são ramos carregados de folhas a agitarem-se como água salgada ao vento. As vozes na cozinha não são mais do que as conversas mudas entre pescadores. Gestos de árvore. E eu não sou mais do que uma árvore de braços caídos, um salgueiro-chorão talvez, a levar garfadas de comida à boca como quem dá migalhas aos pássaros. As palavras faladas quase não saem porque, quando se é árvore, a pele endurece e os lábios contorcem-se dificilmente para um sorriso. Depois, tudo se amontoa, crescem pilhas de coisas por dizer, coisas já livros, coisas impossíveis de dizer com a boca. Só muito mais tarde nos apercebemos que quando se é árvore é porque não se escreve. E aqui, escrever é agitar os braços como ramos e pintar palavras nas próprias folhas, na pele.
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