
O Café Oto, talvez o centro atual de todos os movimentos sonoros e experimentais de Londres, anunciou o concerto como a) a estreia absoluta do músico no Reino Unido b) capaz de manter uma velocidade média de 19,5 notas por segundo em cada mão; c) detentor do recorde de mais notas tocadas numa hora. Soa a artista de circo. Mas a figura é tudo menos isso. Um homem de 64 anos, cabelo e barba compridos, e uma aura clara de erudito e místico. Apresenta-se. Explica-se. Faz da ‘música contínua’, quando fala dela, uma coisa simples e divertida. Muito visual apesar dos conceitos abstratos que a definem. Lubomyr Melnyk, provavelmente um nome desconhecido para muitos, é o pioneiro (e) percursor da chamada ‘continuous music’, facilmente traduzida para ‘música contínua’. Não é bem, ou tão só e apenas, música sem princípio nem fim. É mais do que isso. É uma peculiar linguagem musical, uma técnica única que envolve acordes puros, tonalidades não finitas, e tapetes sonoros líquidos. É também uma técnica mental que obriga o corpo, as mãos, a adotarem outros movimentos e uma postura metafísica mais próxima da sonoridade do piano do que da música em si. Nasce, assim, uma nova relação, ou revelação, entre o músico e o piano. Algo inerente e espiritual.
O concerto foi dividido em duas partes distintas. Uma primeira com as peças Meditations e House of a Thousand Shutters. Uma segunda com uma peça longa para dois pianos intitulada The Fountain. Entre elas, Melnyk frisou, pelo menos duas vezes, o privilégio que é ouvir in loco porque, considera ele, que nenhuma gravação consegue reproduzir o ‘objeto sonoro’ original, a ressonância do instrumento, a orgânica do momento. Por isso faz sempre questão que a primeira ‘camada’ de The Fountain seja gravada no próprio local, no mesmo dia e no mesmo piano. O resultado é impressionante. Surgem mãos imaginárias. Imagens abstratas puras. Momentos em que o embrulho de notas (bem acamado, diga-se) torna-se apenas ressonância que se vai estendendo num drone contínuo. Algo muito mais complexo do que Meditations e House of a Thousand Shutters, se bem que nestas as mudanças de tempo e de tonalidade sejam também de uma imprevisibilidade constante, ou melhor, contínua. Muitos fecham os olhos e imaginam, talvez, as sugestões de Melnyk: ‘…birds coming, but a lot of them’.