
Não será de todo errado pensar em Glenn Jones como um virtuoso de palavras na exacta medida em que o é musicalmente com uma guitarra nas mãos. Pedirem-lhe para falar de John Fahey, mais precisamente na colecção Your Past Will Come To Haunt You, é uma tarefa que o deixa claramente num infinito. Quase ao ponto de se perder nas horas e se esquecer que também é músico, guitarrista, e que ainda tem mais de uma hora para tocar algumas peças dos seus discos a solo.
Fahey é o fantasma da noite no Café Oto. Jones imita-o. A voz. Porque depois de tantos anos na procura de uma identidade, teremos de o ver como qualquer outro músico do Primitivismo Americano ou Escola de Takoma. E se Fahey é, sem dúvida alguma, aquele que deu sopro ao movimento, Jones é aquele que o perpetua. Quer na continuação em palco de um legado deixado por uma das mais misteriosas figuras da tradição folk americana, quer na celebração contínua de outras figuras importantes como Robbie Basho, Max Ochs, Harry Taussig, Fred Gerlach ou Dick Rosmini.
Fahey e Jones foram amigos durante muitos anos. Gravaram juntos (com a banda do segundo, Cul De Sac) um disco chamado The Epiphany Of Glenn Jones, do qual Jones não guarda boas recordações, mas que fez com que se tornassem melhores amigos. Ao ponto de Jones se ter tornado a mais viva voz biográfica de Fahey. E eis ele aqui à nossa frente a contar histórias, a imitar a voz de Fahey, a explicar um pouco dos seus projectos, a celebrar o legado de um dos mais importantes músicos da cena americana. Sem dúvida, parafraseando a revista WIRE ao referir-se a Your Past Will Come To Haunt You, ‘uma das grandes histórias musicais do século XX’.
Depois de mais de uma hora de conversa Jones pegou na guitarra. Ou melhor, várias. Mais precisamente, três guitarras acústicas e um banjo. Cada guitarra com a sua afinação e função. Uma de seis cordas, uma de doze, e ainda outra devidamente preparada para ser tocada com um slide. Uma coisa é certa: se Fahey entendia a música como uma forma de catarse das emoções mais profundas, onde havia espaço quer para uma negritude feita de raiva, medo, frustração, quer para a luminosidade da exultação e do divertimento, em Jones todas estas emoções deambulam por territórios muito mais diluídos. Escrevem-se a elas mesmas ao exigirem silêncio e uma contemplação quase religiosa no espaço pequeno em que soam. Islands (tocada em slide reverberado) é de uma lentidão de deserto. Não do mesmo deserto de Paris-Texas. Aqui tudo é mais abundante, menos vazio, nada está a mais ou a menos. Obrigam-nos, seriamente, a ouvir a estrutura da composição numa dicotomia entre matemática sónica e a emoção e sentimento que a combatem. Chama-se a isto simplicidade.


