um blogfolio de coisas sonoras

14.8.13

Sala de Espera: The Smiths




(1) Existe algo nos Smiths que nunca me fez ouvir um pouco mais atentamente os discos. Conheço bem a voz de Morrissey, o jangly da guitarra de Marr. as linhas de um baixo em permanente movimento, os tiques de um baterista que tenta a todo o custo não deixar as músicas fugir de um epicentro punk para uma arena demasiado pop. Conheço as músicas, mais propriamente os singles, dos bares, da rádio, de uma vivência pura dos mais velhos durante os anos 90. Admito que Bigmouth Strikes Again continua a ser uma música suprema perfeita para lugares com muito fumo (coisa cada vez mais rara nos dias de hoje) e caves obscuras habitada por gente de sobretudo. Admito também que os Smiths possuem uma sonoridade que parece transportar os anos 80 para as décadas seguintes e uma atitude discreta que vincou muito aquilo o que é hoje tido como grande referência da música independente. Mas isto não chega. Quer dizer, não chega para me ver agarrado aos discos e escutar-lhes os mais ínfimos segredos e pormenores que me têm escapado todos estes anos. Descubro algumas coisas interessantes em Marr: um certo repetitivismo de loop, uma crescente exploração discreta de sons espaciais na excelente How Soon Is Now?, uma certa imprevisibilidade de composição que nunca é muito bem pop nem rock, fica ali algures, mas bem ancorada.

(2) Muita coisa tem sido dita sobre os Smiths. Que são o maior valor de uma geração pós-punk, que as letras de Morrissey são de rara poesia na pop, que não se vendem aos comebacks, que inventaram qualquer coisa ainda por descobrir. No entanto, ao vê-los num vídeo de um concerto de 1989 algures em Madrid, fico com a sensação de que há algo que pouco satisfaz quem quer mais do que uma banda que vive de culto. A atitude de Marr (louvável, diga-se) de não enveredar pelo uso rock da distorção deixa as músicas entregues a uma simplicidade que, embora seja uma imagem de marca, se torna uma prisão de dinâmicas. Morrissey em palco compensa o seu anti-vedetismo vocal com uma dança de moço tímido que deixa as canções num torpor nivelado às emoções básicas de adolescente. Dificilmente consigo desfazer-me destas ideias.