
(1) Ao ler um pequeno texto de Rainer Maria Rilke acresce a visão imediata da capa do disco mais emblemático dos canadianos Godspeed You Black Emperor. O texto intitula-se O Homem Desconhecido e faz parte do livro de bolso Histórias do Bom Deus editado pela Quasi. Abre-se com a proposição de que Deus não sabe qual é o aspecto final do Homem devido a uma feia desobediência das suas mãos. As mãos de Deus. Mãos que, sendo suas, parecem não fazer parte do mesmo corpo. Resumindo: um dia, Deus enviou a sua mão direita à terra e ordenou-lhe que tomasse forma humana e se colocasse nua no cimo de um monte para que Deus a pudesse ver bem. Assim, a mão foi cortada por um anjo e desceu à terra. O que se segue é digno de um pesadelo boschiano com homens com armaduras, um homem com um manto púrpura, e a outra mão, a esquerda, que tapava a ferida da outra, a ficar inquieta e a querer soltar-se. Depois, a Terra coberta do sangue de Deus e prestes a morrer. Quando, num derradeiro esforço, a mão direita regressa aos aposentos divinos há uma clara ideia de trauma terrestre. A mão regressa pálida e trémula sem se conseguir refazer da experiência.
(2) É um texto abstracto, como se fosse tirado de um sonho. Existe nele algo de compreensão tácita. Ou talvez não. Sejam as ideias ou as imagens, existe algo nos desenhos do Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven que parece invocar os desígnios da parábola. A capa são duas mãos cortadas sobrepostas em raios divinos vermelhos. No interior duas ilustrações: uma figura mascarada (um anjo negro?) que corta as mãos; a mesma figura de braços cruzados e no canto superior a outra figura suspensa numa nuvem com os braços ligados.

Os desenhos são de William Schaff, artista que tem colaborado com outros nomes da música como Okkervil River, Songs: Ohia, e The Mighty Mighty Bosstones. Numa entrevista para a Stylus, Schaff conta como surgiu o convite de Efrim e explica que os desenhos não foram criados com o propósito do disco, ou da música do disco. Foram antes escolhidos de um pequeno livro/catálogo. Num outro artigo, na Stylus, invoca-se o expressionismo alemão e nomes como Otto Dix, George Grosz e Max Beckmann. Não são apenas as figuras que se assemelham, existe também a ideia presente de amputações a soldados no período pós-guerra, muito ao estilo de Otto Dix.
(3) Existem obviamente referências bíblicas que podem explicar a justaposição do texto de Rilke e dos desenhos de Schaff. A mão direita invoca diferentes simbolismos: Deus como a mão direita do Homem, a mão direita de Deus como símbolo de poder, ou a mão direita como uma entidade individualizada. Poderemos conspirar as mais variadas interpretações dos desenhos de Schaff. Tanto podem ter uma inspiração biblíca como conter uma mera alusão aos efeitos dramáticos do expressionismo alemão. Repare-se ainda na folha de papel pousada na mesa. Terão as mãos sido cortadas antes ou depois? Independentemente disso, existe aqui uma mensagem qualquer, uma ideia de que há algo escondido ali, provavelemente um contrato simbolizando a perda da liberdade e uma consequente subserviência ao poder. Mas que poder é este afinal? Certamente algo que criou faísca nas mãos dos Godspeed.