um blogfolio de coisas sonoras

27.8.13

Quatro discos





Simon & Garfunkel - Parsley, Sage, Rosemary and Thyme
Camel - The Snow Goose
Felt - Forever Breathes the Lonely Word
Roberta Flack - First Take

O que é que estes quatro álbuns têm em comum? Tirando o facto de terem sido todos comprados na mesma loja,  provavelmente, nada. A loja chama-se Magpie e fica em Chippenham. Outrora a secção dos discos ficava num sótão, agora fica logo à entrada. Perdeu-se assim um pouco daquele ar nostálgico de telhados inclinados, madeiras e telhas expostas ao imaginário antigo dos gira-discos. Cá fora existem duas ou três caixas com discos a uma libra. Foi nelas que encontrei os três primeiros. A esse preço é impossível resistir à oferta.

O disco de S&G é uma obra que respira pormenores muito interessantes. Primeiro em títulos de canções como A Simple Desultory Philippic (Or How I Was Robert McNamara'd Into Submission) ou The Big Bright Green Pleasure Machine, depois a versão/adaptação de Silent Night justaposta com as notícias no rádio sobre guerra e descriminação. Ainda de salientar uma das melhores composições da dupla - For Emily, Whenever I May Find Her - que nunca deixa de surpreender pelo seu crescendo emocional em pouco mais de dois minutos. Lembremo-mos também que estamos em 1966 e este é já o terceiro disco da dupla folk num curto espaço de dois anos. Eram outros tempos. A música pop ainda dava os primeiros passos firmes - Among all the forms of entertainment we have, pop music has become the most alive medium (Garfunkel) - e Dylan abria uma nova paisagem literária. 

O Snow Goose é uma paixão antiga da descoberta musical pré adolescente e de uma vaga ideia de uma banda-sonora de um filme de animação que passava sempre na altura do Natal (o filme chamava-se KEI, creio). Tirando alguns devaneios progressivos, os Camel faziam coisas interessantes. Este disco é um bom exemplo. Mas, na verdade, não se trata de uma banda-sonora, antes uma obra inspirada no livro de Paul Gallico. Por questões de direitos, as letras com alusões óbvias ao texto, foram removidas e apenas foi lançada uma versão instrumental. Hoje é considerada uma das obras primas do rock sinfónico e está já anunciada uma tour deste álbum para outono de 2013. Se soar tão bem em palco como soa hoje em disco talvez seja uma razão válida para o regresso dos Camel, mesmo sem Bardens.

O disco dos Felt foi um encontro inesperado. Nunca pensei encontrar um disco destes numa caixa de uma libra e até há quem o venda online por mais de vinte. A capa é de uma simplicidade enigmática mas o conteúdo é abertamente pop. Melodias acentuadas, acordes maiores, canções concisas. A voz de Lawrence retira-lhe todo o soporífero mainstream da mesma forma que o fazia Lou Reed nos Velvet. Contudo, não é apenas no tom de voz que reside essa aura anti, é também nas letras ambivalentes entre a alegria pop e os espaços mais negros: I like those deep dark thoughts that leave you stranded way in mid-air

O álbum da Roberta Flack foi o mais caro. Custou quatro libras. Penso que o descobri, há não muito tempo, se não pela versão da Hey That's No Way To Say Goodbye, do Cohen, pela versão de The First Time Ever I Saw Your Face, de Ewan MacColl . Todo ele é melancólico e possui uma sonoridade fumarenta a fazer lembrar os melhores momentos jazzisticos de Nina Simone. Lançado em 1969, o álbum de estreia de Flack, apesar da melancolia, rapidamente chegou a primeiro lugar nos tops da Billboard. Tudo se explica com The First Time Ever I Saw Your Face. Não só porque fez parte da banda-sonora de Play Misty for Me, de Clint Eastwood, mas também porque é simplesmente uma música soberba que tem sido objecto de versões de gente como Johnny Cash ou The Flaming Lips.