Durante o mês de Março, William Basinski recria em Londres o estúdio e espaço artístico Arcadia. Originalmente plantado na comunidade artística de Williamsburg, entre 1989 e 1997, Arcadia foi o evento impulsionador da cultura avant-garde local e incluiu música underground, cabaret e sessões de poesia de artistas como Antony e Diamanda Galas. A convite da Art Assembly, Basinki revive Arcadia em Londres com vários concertos de nomes como Michael Gira, o próprio William Basinski, Rhys Chatham ou Charlemagne Palestine, assim como outros eventos ligados ao cinema e artes performativas. Mais detalhes AQUI.
Na passada quarta-feira, na igreja de St. John, deu-se a oportunidade única de assistir, na mesma noite, a concertos de William Basinski e Michael Gira. Duas propostas bem diferentes, quase opostas, ora não fossem ambos habitantes dos mesmos lugares, da mesma escola ou até, numa abordagem bem abstracta (afinal, estávamos numa igreja), da mesma religião. Se Basinski é um doutor de fitas magnéticas e minudências, Gira é um atroz vilão que tortura a própria voz e agride a guitarra acústica, ou pelo menos subverte a forma convencional em que é tocada. Se Basinski nos convida a entrar na sua espiral introspectiva dormente, Gira é um poço de emoções obscuras em explosões vulcânicas. Uma combinação dinâmica, portanto.
Basinski começou com um loop de sons piano subtis. Algo muito leve, espaçado, e aos poucos foi tornando o som mais diluído, mais atmosférico, desintegrado, se preferirem a alusão aos títulos que lhe deram reconhecimento. A operação foi lenta e cirúrgica. Basinski usa dois gravadores de fita portáteis (se é que podemos usar aqui a palavra portátil, tendo em conta a noção de portabilidade de hoje) e em cada um deles faz o loop de fita com três pilhas das grandes. O toque leve nas pilhas, deslizando-as suavemente em cima dos aparelhos, provoca alterações muito subtis (e sempre imprevisíveis) na sonoridade do loop, seja porque a velocidade deste se altera, seja porque a leitura da fita se torna inconstante. Basinski usou ainda, crê-se, um pedal de delay que vai acumulando atrasos e criando desfasamentos ao estilo de Steve Reich. No final da primeira peça, o piano era quase só som, e apenas uma réstia dele serviu de transição para um segundo loop cuja mudança Basinski operou com todos os cuidados, o que deu também para ver o grau de perícia na manipulação das fitas e do instrumento que as reproduz. Essa segunda peça conseguiu ser ainda mais abstracta do que a primeira, e talvez tenha sido essa a razão pela qual um tipo estranho (daqueles cromos que aparecem sabe-se-lá de onde) tenha começado a aplaudir antes do fade out estar completo e a gritar para Basinski, “give me some vocals”. Basinski, não teve qualquer problema com isso. Chegou-se ao microfone e começou a cantar uma música amorosa para ele, cerca quatro versos muito bem cantados cheios de estilo e gestos de cabaret. Risos e muitos aplausos. Momento único.
Quando Gira subiu ao altar, tudo se alterou e nunca mais se ouviu a tal cromo gritar “give us some vocals”. Não só porque Gira dá a voz como ninguém, mas também porque não há coragem de dizer seja o que for a um tipo que intimida uma plateia inteira só com o olhar. Há nele um magnetismo todo-poderoso e logo no final da primeira música (Jim) implica com o técnico de som (algo que fez algumas vezes durante o concerto) para que ele aumente o volume na monição de palco e baixe no resto. Gira quer sentir o som no estômago, na pele, e nós só podemos agradecer. É que ali, naquele momento, deu para perceber que Gira não se transforma só com a agresividade eléctrica dos Swans. A agressividade (talvez agressividade não seja a melhor palavra aqui) parte dele. As músicas são tensas, intensas, e a voz sai-lhe em berros poderosos, assustadores, demoníacos. A guitarra acústica, ligada a um amplificador, sai com tanta força que distorce em sintonia com a voz. “Nada de compressores ou limitadores” acrescenta Gira. Não é um comentário. É uma exigência. Ficamos pregados ao chão. Aquela voz é imensa e diga-se já que não há ninguém, mesmo ninguém, que toque e cante como Michael Gira. É algo inumano, de monstro diabólico, que desobedece a todos os cânones. Mesmo sem toda aquela massa sonora dos Swans, a intensidade psico-emocional é a mesma, e não haja dúvidas que tanto houve gente a sentir-se desconfortável, como houve gente a entrar em transe. Muitas das músicas que tocou podem ser encontradas em The Milk Of M. Gira, mas houve também versões de peças mais recentes dos Swans, piscadelas aos Angels Of Light e canções do disco mais acessível dos Swans, The Burning World.
Setlist:
Jim
My True Body
Destroyer
Oxygen
All Lined Up
Helpless Child
My Suicide
Promise of Water
Love Will Save You
New Mind
Piece of the Sky
God Damn The Sun
fotos: Fabio Lugaro