um blogfolio de coisas sonoras

20.5.14

Jandek: segunda noite no café Oto 15.2


A grande atração pela figura de Jandek não é, nem nunca foi, a música (ou anti-música se preferirem) que ele anda a fazer desde 1978. É antes toda a aura misteriosa em torno de um outsider recluso que ao longo de todos estes anos raramente deu entrevistas ou falou sobre si. Tornou-se uma figura de culto, um mito, e só muito recentemente, há cerca de 10 anos, começou a dar concertos. No mês passado foi capa da WIRE e veio a Londres, ao café Oto, para três concertos seguidos no passado fim-de-semana.

Fiquei curioso depois de ler o artigo da WIRE. As fotografias mostravam um tipo vestido de preto e de óculos escuros, uma espécie de anjo negro saído de um século muito antigo. Da entrevista ficam algumas passagens estranhas, profundas e muito filosóficas, que parecem realmente mostrar que ali há um mundo aparte para descobrir. Afinal de contas, este homem de 69 anos passou quase a vida inteira a editar discos na sua misteriosa Corwood Industries sem nunca ter tido um único momento em que verdadeiramente afina a guitarra ou a voz. As gravações são caseiras. As capas dos discos condizem com a figura. As letras são supostamente de um escritor maldito que vive solitário algures em Houston. Não quis saber mais de Jandek até ao concerto. Ouvi duas músicas, espreitei a lista discográfica e deixei o documentário Jandek On Corwood para depois.

No sábado, depois de uma meia-hora de bateria, saxofone e ruídos do trio Paul Abbott / Seymour Wright / Daichi Yoshikawa esperava-se ansiosamente por Jandek. Foi uma boa esfregadela de ruídos apropriados: um saxofone aos guinchos e um japonês a dar gazonete nas eletrónicas do ruído. O baterista teve os seus momentos, mas as partes mais interessantes foram protagonizadas pelos sons que nunca tinha ouvido sair de um saxofone em sintonia com as tonalidades eletrónicas. No intervalo a sala estava cheia. Os organizadores pediram às pessoas para chegarem as cadeiras mais para a frente para criar algum espaço. Esperava-se por Jandek. Pouco depois surgiu o vulto de preto com o seu chapéu distinto e olhar de réptil. Entrou na sala acompanhado por três músicos americanos que pouco ou nada tinham a ver com ele. Eram muito mais novos e tinham um estilo mais convencional. O baterista parecia um solicitador em início de carreira. O baixista parecia um irlandês de ressaca. A rapariga, bem, a rapariga até parecia ter saído do mundo de Jandek. Vestia um vestido inspirado no antigo, e por detrás daquele ar angélico parecia existir algo demoníaco. Na primeira música era só ele e ela: ele a ler os seus papéis, frases sobre solidão e bebida e ela com dois slides em cada mão a fazer ruídos na guitarra elétrica. Confesso que metia medo. Aquelas figuras pareciam demasiado estranhas para serem deste mundo e adivinha-se um concerto em tensão absoluta, repleto de ansiedades e asfixia.

Não me enganei. Enganei-me só e apenas na razão que provocava essa ansiedade e asfixia. Se na primeira música havia mistério e os ruídos elétricos de fundo eram uma banda-sonora aplicada às palavras de Jandek, a partir da segunda música tudo se tornou desleixado, fraco e incoerente. Jandek foi para o teclado e a partir daí tudo se tornou um ensaio de gente em nada interessada em tocar seja o que for em sintonia, exceto a óbvia dinâmica entre partes fortes e partes mais calmas. Surgem as dúvidas: será que não sabem mesmo tocar e estão convencidos que sabem? ou será que sabem e estão ali num esforço em tocar o pior possível só para prolongar a agonia de quem os ouve? será que é suposto um gajo se rir disto ou levantar-se e ir embora? Algumas pessoas não ficam por muito tempo. Ao fim da segunda ou terceira música começaram a sair.

Não deu para perceber muito bem o que se passou ali. Não é suposto Jandek andar a tocar música tal e qual a entendemos, mas também não é suposto ficarmos ali a ver um espetáculo deprimente, sem qualquer perspetiva artística sequer que seja, sem qualquer presença carismática. Por muito medonha que seja a figura, Jandek em palco torna-se um espantalho de voz fraca e versos de rima fácil. As palavras não lhe saem com peso, e depois de uma hora a ouvir aqueles três marmanjos a coçar os instrumentos, estar ainda ali à espera que algo interessante aconteça chega a ser desesperante. Mais para o fim ainda trocaram de instrumentos e deu-se uma nova estética. O baterista e o baixista trocam de posições e começaram a dar gesso. Jandek foi para a guitarra elétrica e a rapariga começou aos berros a confrontar os primeiros sentados à frente. Mas já foi tarde. Todo aquele ruído foi insuficiente para encobrir um artista já desmascarado.