Um é um ilustre conhecido: líder dos Einstürzende Neubauten e ex-Bad Seed. O outro é um ilustre desconhecido: compositor de bandas-sonoras, designer sonoro e músico de bandas como Meathead ou Operator. Se o primeiro dispensa introduções, o segundo obriga a uma pesquisa. Theo Teardo é um daqueles músicos com formação clássica (começou pelo clarinete) que um dia ouviu Ramones, virou-se para a guitarra e para o punk-rock (assim de repente, lembremo-nos de Rhys Chatham), e acabou um dia para se encontrar numa identidade híbrida na oficina de música para filmes. As primeiras bandas-sonoras de Teardo datam de 1985 (The Birth Of The Day) e em 2008 ganhou o prémio Morricone com a banda-sonora para o filme Il Divo de Paolo Sorrentino. Ora, foi precisamente uma banda-sonora que esteve na origem da colaboração com Blixa Bargeld, e a mera colaboração num tema intitulado A Quite Life, acabou por abrir portas para o álbum Still Smiling (2013). Aquilo que seria mais uma banda-sonora dentro das tendências mais recentes, que cruzam a electrónica com a música de câmara (Max Richter, Clint Mansell, Johann Johansson), com a inclusão da voz sempre presente de Blixa a ocupar os espaços, à partida deixados para as imagens filmícas, o projecto acabou por ganhar uma forma mais orgânica, de banda, de projecto que pode ir para o palco.
Assim, no palco da Union Chapel, vemos Theo Teardo nas programações e na guitarra barítono, uma violencelista, e Blixa ao centro. Cenário de sombras escuro com Mi Scusi (importante referir a própria letra da música, primeira do disco, em que Blixa pede desculpa pelo seu broken-italiano), Axolotl ou Still Smiling. Três línguas diferentes. Sem complexos. O trio é também ele uma combinação exemplar. Teardo é o condutor musical, espécie de orquestrador com uma guitarra no lugar da batuta, a accionar os sons pré-gravados e os inúmeros efeitos que tornam o álbum algo muito distinto. A violencista pontua as melodias e os arranjos de banda-sonora. Blixa dá a voz grave, os loops meticulosos da mesma, e os habituais meta-guinchos dele (lembram-se de Stagger Lee?). No preciso momento em que o concerto se tornava um pouco monótono (mesmo com as excelentes tiradas de Blixa entre as músicas) subiu um quarteto ao palco (dois violinos, viola e violoncelo) que preencheu tudo o que havia para preencher com espaço sonoro, cor orgânica, e energia acústica. A partir daqui foi um super-corpo de som. Três momentos exemplares a assinalar: uma versão de The Empty Boat, original de Caetano Veloso, cujas melodias e arranjos tornaram mesmo difícil perceber como é que o músico brasileiro é ainda alguém desconhecido para tanta gente; uma versão do hit dos anos 60, Soli Si Muore, de Patrick Samson, cujos arranjos cool fizeram Blixa esbracejar e dar pontapés no ar; e a última música do concerto, Defenestrazioni, um combinação melódica sublime (daquelas que se podem ouvir em repetição até ao infinito) com um aparato de vozes: uma multidão, uma mulher de hotel e Blixa em spoken word revolucionário.