30.5.14
29.5.14
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23.5.14
22.5.14
20.5.14
William Basinski + Michael Gira em St. John Hackney
Durante o mês de Março, William Basinski recria em Londres o estúdio e espaço artístico Arcadia. Originalmente plantado na comunidade artística de Williamsburg, entre 1989 e 1997, Arcadia foi o evento impulsionador da cultura avant-garde local e incluiu música underground, cabaret e sessões de poesia de artistas como Antony e Diamanda Galas. A convite da Art Assembly, Basinki revive Arcadia em Londres com vários concertos de nomes como Michael Gira, o próprio William Basinski, Rhys Chatham ou Charlemagne Palestine, assim como outros eventos ligados ao cinema e artes performativas. Mais detalhes AQUI.
Na passada quarta-feira, na igreja de St. John, deu-se a oportunidade única de assistir, na mesma noite, a concertos de William Basinski e Michael Gira. Duas propostas bem diferentes, quase opostas, ora não fossem ambos habitantes dos mesmos lugares, da mesma escola ou até, numa abordagem bem abstracta (afinal, estávamos numa igreja), da mesma religião. Se Basinski é um doutor de fitas magnéticas e minudências, Gira é um atroz vilão que tortura a própria voz e agride a guitarra acústica, ou pelo menos subverte a forma convencional em que é tocada. Se Basinski nos convida a entrar na sua espiral introspectiva dormente, Gira é um poço de emoções obscuras em explosões vulcânicas. Uma combinação dinâmica, portanto.
Basinski começou com um loop de sons piano subtis. Algo muito leve, espaçado, e aos poucos foi tornando o som mais diluído, mais atmosférico, desintegrado, se preferirem a alusão aos títulos que lhe deram reconhecimento. A operação foi lenta e cirúrgica. Basinski usa dois gravadores de fita portáteis (se é que podemos usar aqui a palavra portátil, tendo em conta a noção de portabilidade de hoje) e em cada um deles faz o loop de fita com três pilhas das grandes. O toque leve nas pilhas, deslizando-as suavemente em cima dos aparelhos, provoca alterações muito subtis (e sempre imprevisíveis) na sonoridade do loop, seja porque a velocidade deste se altera, seja porque a leitura da fita se torna inconstante. Basinski usou ainda, crê-se, um pedal de delay que vai acumulando atrasos e criando desfasamentos ao estilo de Steve Reich. No final da primeira peça, o piano era quase só som, e apenas uma réstia dele serviu de transição para um segundo loop cuja mudança Basinski operou com todos os cuidados, o que deu também para ver o grau de perícia na manipulação das fitas e do instrumento que as reproduz. Essa segunda peça conseguiu ser ainda mais abstracta do que a primeira, e talvez tenha sido essa a razão pela qual um tipo estranho (daqueles cromos que aparecem sabe-se-lá de onde) tenha começado a aplaudir antes do fade out estar completo e a gritar para Basinski, “give me some vocals”. Basinski, não teve qualquer problema com isso. Chegou-se ao microfone e começou a cantar uma música amorosa para ele, cerca quatro versos muito bem cantados cheios de estilo e gestos de cabaret. Risos e muitos aplausos. Momento único.
Quando Gira subiu ao altar, tudo se alterou e nunca mais se ouviu a tal cromo gritar “give us some vocals”. Não só porque Gira dá a voz como ninguém, mas também porque não há coragem de dizer seja o que for a um tipo que intimida uma plateia inteira só com o olhar. Há nele um magnetismo todo-poderoso e logo no final da primeira música (Jim) implica com o técnico de som (algo que fez algumas vezes durante o concerto) para que ele aumente o volume na monição de palco e baixe no resto. Gira quer sentir o som no estômago, na pele, e nós só podemos agradecer. É que ali, naquele momento, deu para perceber que Gira não se transforma só com a agresividade eléctrica dos Swans. A agressividade (talvez agressividade não seja a melhor palavra aqui) parte dele. As músicas são tensas, intensas, e a voz sai-lhe em berros poderosos, assustadores, demoníacos. A guitarra acústica, ligada a um amplificador, sai com tanta força que distorce em sintonia com a voz. “Nada de compressores ou limitadores” acrescenta Gira. Não é um comentário. É uma exigência. Ficamos pregados ao chão. Aquela voz é imensa e diga-se já que não há ninguém, mesmo ninguém, que toque e cante como Michael Gira. É algo inumano, de monstro diabólico, que desobedece a todos os cânones. Mesmo sem toda aquela massa sonora dos Swans, a intensidade psico-emocional é a mesma, e não haja dúvidas que tanto houve gente a sentir-se desconfortável, como houve gente a entrar em transe. Muitas das músicas que tocou podem ser encontradas em The Milk Of M. Gira, mas houve também versões de peças mais recentes dos Swans, piscadelas aos Angels Of Light e canções do disco mais acessível dos Swans, The Burning World.
Setlist:
Jim
My True Body
Destroyer
Oxygen
All Lined Up
Helpless Child
My Suicide
Promise of Water
Love Will Save You
New Mind
Piece of the Sky
God Damn The Sun
fotos: Fabio Lugaro
Theo Teardo & Blixa Bargeld na Union Chapel (18.3.14)
Um é um ilustre conhecido: líder dos Einstürzende Neubauten e ex-Bad Seed. O outro é um ilustre desconhecido: compositor de bandas-sonoras, designer sonoro e músico de bandas como Meathead ou Operator. Se o primeiro dispensa introduções, o segundo obriga a uma pesquisa. Theo Teardo é um daqueles músicos com formação clássica (começou pelo clarinete) que um dia ouviu Ramones, virou-se para a guitarra e para o punk-rock (assim de repente, lembremo-nos de Rhys Chatham), e acabou um dia para se encontrar numa identidade híbrida na oficina de música para filmes. As primeiras bandas-sonoras de Teardo datam de 1985 (The Birth Of The Day) e em 2008 ganhou o prémio Morricone com a banda-sonora para o filme Il Divo de Paolo Sorrentino. Ora, foi precisamente uma banda-sonora que esteve na origem da colaboração com Blixa Bargeld, e a mera colaboração num tema intitulado A Quite Life, acabou por abrir portas para o álbum Still Smiling (2013). Aquilo que seria mais uma banda-sonora dentro das tendências mais recentes, que cruzam a electrónica com a música de câmara (Max Richter, Clint Mansell, Johann Johansson), com a inclusão da voz sempre presente de Blixa a ocupar os espaços, à partida deixados para as imagens filmícas, o projecto acabou por ganhar uma forma mais orgânica, de banda, de projecto que pode ir para o palco.
Assim, no palco da Union Chapel, vemos Theo Teardo nas programações e na guitarra barítono, uma violencelista, e Blixa ao centro. Cenário de sombras escuro com Mi Scusi (importante referir a própria letra da música, primeira do disco, em que Blixa pede desculpa pelo seu broken-italiano), Axolotl ou Still Smiling. Três línguas diferentes. Sem complexos. O trio é também ele uma combinação exemplar. Teardo é o condutor musical, espécie de orquestrador com uma guitarra no lugar da batuta, a accionar os sons pré-gravados e os inúmeros efeitos que tornam o álbum algo muito distinto. A violencista pontua as melodias e os arranjos de banda-sonora. Blixa dá a voz grave, os loops meticulosos da mesma, e os habituais meta-guinchos dele (lembram-se de Stagger Lee?). No preciso momento em que o concerto se tornava um pouco monótono (mesmo com as excelentes tiradas de Blixa entre as músicas) subiu um quarteto ao palco (dois violinos, viola e violoncelo) que preencheu tudo o que havia para preencher com espaço sonoro, cor orgânica, e energia acústica. A partir daqui foi um super-corpo de som. Três momentos exemplares a assinalar: uma versão de The Empty Boat, original de Caetano Veloso, cujas melodias e arranjos tornaram mesmo difícil perceber como é que o músico brasileiro é ainda alguém desconhecido para tanta gente; uma versão do hit dos anos 60, Soli Si Muore, de Patrick Samson, cujos arranjos cool fizeram Blixa esbracejar e dar pontapés no ar; e a última música do concerto, Defenestrazioni, um combinação melódica sublime (daquelas que se podem ouvir em repetição até ao infinito) com um aparato de vozes: uma multidão, uma mulher de hotel e Blixa em spoken word revolucionário.
Jandek: segunda noite no café Oto 15.2
A grande atração pela figura de Jandek não é, nem nunca foi, a música (ou anti-música se preferirem) que ele anda a fazer desde 1978. É antes toda a aura misteriosa em torno de um outsider recluso que ao longo de todos estes anos raramente deu entrevistas ou falou sobre si. Tornou-se uma figura de culto, um mito, e só muito recentemente, há cerca de 10 anos, começou a dar concertos. No mês passado foi capa da WIRE e veio a Londres, ao café Oto, para três concertos seguidos no passado fim-de-semana.
Fiquei curioso depois de ler o artigo da WIRE. As fotografias mostravam um tipo vestido de preto e de óculos escuros, uma espécie de anjo negro saído de um século muito antigo. Da entrevista ficam algumas passagens estranhas, profundas e muito filosóficas, que parecem realmente mostrar que ali há um mundo aparte para descobrir. Afinal de contas, este homem de 69 anos passou quase a vida inteira a editar discos na sua misteriosa Corwood Industries sem nunca ter tido um único momento em que verdadeiramente afina a guitarra ou a voz. As gravações são caseiras. As capas dos discos condizem com a figura. As letras são supostamente de um escritor maldito que vive solitário algures em Houston. Não quis saber mais de Jandek até ao concerto. Ouvi duas músicas, espreitei a lista discográfica e deixei o documentário Jandek On Corwood para depois.
No sábado, depois de uma meia-hora de bateria, saxofone e ruídos do trio Paul Abbott / Seymour Wright / Daichi Yoshikawa esperava-se ansiosamente por Jandek. Foi uma boa esfregadela de ruídos apropriados: um saxofone aos guinchos e um japonês a dar gazonete nas eletrónicas do ruído. O baterista teve os seus momentos, mas as partes mais interessantes foram protagonizadas pelos sons que nunca tinha ouvido sair de um saxofone em sintonia com as tonalidades eletrónicas. No intervalo a sala estava cheia. Os organizadores pediram às pessoas para chegarem as cadeiras mais para a frente para criar algum espaço. Esperava-se por Jandek. Pouco depois surgiu o vulto de preto com o seu chapéu distinto e olhar de réptil. Entrou na sala acompanhado por três músicos americanos que pouco ou nada tinham a ver com ele. Eram muito mais novos e tinham um estilo mais convencional. O baterista parecia um solicitador em início de carreira. O baixista parecia um irlandês de ressaca. A rapariga, bem, a rapariga até parecia ter saído do mundo de Jandek. Vestia um vestido inspirado no antigo, e por detrás daquele ar angélico parecia existir algo demoníaco. Na primeira música era só ele e ela: ele a ler os seus papéis, frases sobre solidão e bebida e ela com dois slides em cada mão a fazer ruídos na guitarra elétrica. Confesso que metia medo. Aquelas figuras pareciam demasiado estranhas para serem deste mundo e adivinha-se um concerto em tensão absoluta, repleto de ansiedades e asfixia.
Não me enganei. Enganei-me só e apenas na razão que provocava essa ansiedade e asfixia. Se na primeira música havia mistério e os ruídos elétricos de fundo eram uma banda-sonora aplicada às palavras de Jandek, a partir da segunda música tudo se tornou desleixado, fraco e incoerente. Jandek foi para o teclado e a partir daí tudo se tornou um ensaio de gente em nada interessada em tocar seja o que for em sintonia, exceto a óbvia dinâmica entre partes fortes e partes mais calmas. Surgem as dúvidas: será que não sabem mesmo tocar e estão convencidos que sabem? ou será que sabem e estão ali num esforço em tocar o pior possível só para prolongar a agonia de quem os ouve? será que é suposto um gajo se rir disto ou levantar-se e ir embora? Algumas pessoas não ficam por muito tempo. Ao fim da segunda ou terceira música começaram a sair.
Não deu para perceber muito bem o que se passou ali. Não é suposto Jandek andar a tocar música tal e qual a entendemos, mas também não é suposto ficarmos ali a ver um espetáculo deprimente, sem qualquer perspetiva artística sequer que seja, sem qualquer presença carismática. Por muito medonha que seja a figura, Jandek em palco torna-se um espantalho de voz fraca e versos de rima fácil. As palavras não lhe saem com peso, e depois de uma hora a ouvir aqueles três marmanjos a coçar os instrumentos, estar ainda ali à espera que algo interessante aconteça chega a ser desesperante. Mais para o fim ainda trocaram de instrumentos e deu-se uma nova estética. O baterista e o baixista trocam de posições e começaram a dar gesso. Jandek foi para a guitarra elétrica e a rapariga começou aos berros a confrontar os primeiros sentados à frente. Mas já foi tarde. Todo aquele ruído foi insuficiente para encobrir um artista já desmascarado.
19.5.14
18.5.14
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9.5.14
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7.5.14
Pop Rock from Portugal: 1985-1989
6.5.14
5.5.14
4.5.14
3.5.14
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1.5.14
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