um blogfolio de coisas sonoras

10.11.13

Tape + Áine O'Dwyer + Slow Listener @ Café Oto 7.11.2013


Slow Listener não precisa mais do que um oktatrack para mostrar toda a desconstrução de sons gravados e manipulacão sintética de vozes. Sentado à mesa com apenas aquele pequeno aparelho, consegue convencer toda a gente que os gestos subtis de dedos nos botões não são apenas fruto do acaso, e que há ali uma qualquer intelectualidade complicada na forma como se articulam as ideias. Não consegue bem é invocar o estatuto de manipulador de drones à Basinski. Ou melhor, de desconstrutor de drones, porque meditação não é bem a dinâmica que boia nesta pequena peça que prepara a noite dos Tape. Repetição sim. "And that's it", diz, e sai timidamente do seu lugar com o aparelho debaixo do braço.

Áine O'Dwyer é um nome já familiar de outras paragens. Foi uma das muitas tocadoras de harpa que passaram pelo Daylight da Union Chapel. Na igreja era uma figura escondida ao longe, a tricotar sons que se perdiam na acústica imensamente sagrada do espaço. Aqui, no Café Oto, é um semblante de anjo mau (ou negro) com todas as expressões faciais de uma voz clara, a invocar fantasmas das profundezas da folk irlandesa sem nunca cair em ornamentos desnecessários. As duas peças extensas que apresentou foram apenas o embrulho cuidadosamente preparado para o total de cerca de seis temas divididos em duas partes (esses temas podem ser encontrados aqui). A estrutura duplicada de voz-instrumental-voz foi a perfeita dinâmica para a contemplação de uma voz delicada mas firme, e de momentos idílicos de harpa tão bem escutados ao pormenor por uma audiência silenciosa. Áine possui mistério e leva-nos para um lugar qualquer estranho. Aceitamos o convite de olhos fechados.

Os Tape, trio sueco de electrónica pós-rock, possuem qualidades únicas de virtuosos das coisas mínimas. Primeiro porque o arranjo final que apresentam é revestido com uma linguagem tão simples que esconde todo o trabalho meticuloso de composição. Além dessa linguagem simples possuem como trunfo o silêncio e os espaços: a música respira. Segundo, porque conseguem uma plástica perfeita entre instrumentos à partida distantes entre si: uma guitarra eléctrica vintage de sonoridade ancorada no blues-jazz ao bom estilo de um Marc Ribot; um trio de sintetizadores com design de 70s cuja sonoridade (apenas a sonoridade) invoca terrenos progressivos pisados, por exemplo, por uns Camel menos rockeiros; e uma parelha de sintetizadores modulares que espraiam sujidade nas frases melódicas e sustêm todo o vazio deixado pela ausência de outros instrumentos. A bateria é disso exemplo, na medida em que as peças de Revelationes perdem um pouco do pulsar rítmico original. Porém tal nunca coloca em causa a essência das canções que continuam a respirar uma certa densidade construtiva. Nos Tape, por muito que sejam criadas camadas sonoras distintas e que exista um conceito atonal muito presente nas ambiências electrónicas, a música líquida é essencialmente uma vestimenta de um esqueleto de canções em bruto, ou esboços de canções em construção, que na maioria das vezes são diluídas por qualidades sónicas experimentais. Assim, não é nada de estranhar a gravação mental imediata de frases melódicas, autênticos hooks da pop, a emergirem em abruptos assobios no caminho para casa.