Entre um concerto e outro os Mountains gravaram Centralia. "Mais do mesmo", dirão alguns, "eles nunca fazem o mesmo", dirão outros. São os outros que, de facto, se apercebem que os Montains trazem ao café Oto algo que nunca soa igual e que em quase nada se assemelha ao que eles nos dão em disco. Os alicerces estão lá: as infinitas camadas de drones de sintetizador, as melodias electro-acústicas, a cumplicidade de arranjos que nunca chega a ser progressiva. Desta vez, a distinção é mais clara: não existe uma guitarra acústica. Existem sim duas guitarras eléctricas atiradas contra um tapete denso feito de electrónicas e de cabos coloridos que se amontoam num caos ilusório. Em certas alturas, o som é tão denso e complexo que as guitarras eléctricas deixam de ser guitarras mas (isto pode parecer confuso) continuam a ser eléctricas. Também não é electricidade pura. Existe ruído, sim, existe volume, mas nunca se trata de electricidade apenas pela electricidade. Trata-se de uma outra energia, de um outro organismo, de, se quiserem, de uma outra ideia de existência sonora.
Os Mountains fazem tudo bem durante cerca de 45 minutos. Creio que continuassem a fazê-lo bem por outros 45 minutos. Sem cansaços ou descompressões necessárias. Mas os Mountains sabem que param na hora certa, deixando a vontade suspensa para uma outra oportunidade. O aplauso é forte. No entanto, a audiência percebe rapidamente que precisa de tempo para degustar todos aqueles sons encapsulados num drone infinito. É um drone misterioso. Não parece ser deste mundo. Para sim ser algo que gravita algures, numa outra dimensão, algo que não pertence a ninguém. Nem mesmo aos Mountains. O que os Mountains parecem teré o segredo e a maquinaria para, num acto misterioso de pura magia, sintonizarem através de umas antenas imaginárias um rio de som distante e de o trazerem cá para baixo, para nós. Decrifá-lo não é fácil. De alguma forma os Mountains o fazem, como se para além de todos aqueles sons ainda existissem outros que apenas eles ouvem. Vê-los em palco é assistir a essa luta de captação distante: a cumplicidade que basta para nos dar o que não se pode pedir mais, e o constante esforço de tentar absorver tudo o resto, como se houvessem ainda mais frequências possíveis.
Os Mountains não fazem dois concertos iguais.
