um blogfolio de coisas sonoras

29.5.13

Discos Voadores: THE DOORS - Strange Days



Descobrir Strange Days numa colecção de discos de vinil, contemplar aquela capa circense, sem letras, sem nenhuma nomenclatura óbvia, é algo que inspira, logo à partida, uma relação íntima com um universo psico-musical denso. Não são apenas os poemas ou aquela estranha mistura de improviso e rock negro. São também as cores esbatidas de uma sonoridade que pouco se dá a conhecer logo à primeira audição. Atenção: trata-se aqui de uma descoberta musical pré-adolescência e prévia ao fenómeno bacoco da idolatria trazido pelo exagerado e desviado mito de uma nova geração. No início dos anos 90, ainda na ressaca de uns 80s de muita revolução pop de cores berrantes e de putrefação dos tops, pouco mais havia do que uma espontânea erupção televisiva que pouco ou nada distinguia entre uma Dance Me To The End Of Love de uma Let's Dance, e destas duas de uma Final Countdown ou de uma Still Loving You.

Os Doors eram já alternativos antes de o termo alternativo ter começado a ser usado e Strange Days mostra um lado mais obscuro, mais intelectual, daquilo que pode ser o mundo da pop. É claramente um álbum que vem na continuidade de uma estreia estrondosa com Break On Through, Light My Fire ou The End, mas há qualquer coisa nele que ergue distâncias. Os Doors experimentam: a voz soa misteriosa e degradada (Strange Days), o orgão surge ainda mais hipnótico e distorcido (Unhappy Girl), Horse Latitudes invoca um cenário dantesco e o mesmo sentimento encarnado em pinturas de Bosch. Mas, ainda assim, estamos perante um álbum completo, onde não faltam os blues (Love Me Two Times), as canções pop perfeita (People Are Strange), e as longas-metragens sonoras habituais (When The Music's Over). Se The Doors termina com The End, como se fosse mesmo esse o fim de tudo, Strange Days remata com When The Music's Over, uma das peças mais brutais na história da música rock. Nela temos o tudo e o nada, as explosões orgasmico-eléctricas e o pulsar no limiar dos espectros sonoros, a repetição pop e o puro poema. Mas é no verso "before I sink into the big sleep/I want to hear the scream of a butterfly" que percebemos que este não é um fim absoluto, e que tudo não passa de uma passagem, uma porta, para um outro lado, para um outro mundo, para um outro tempo. Depois de ouvir Strange Days já nada é como dantes.