um blogfolio de coisas sonoras

4.5.13

Labradford - E Luxo So


O João Gilberto tem uma música chamada É Luxo Só. Se já de si o título português soa exótico, como título de um álbum de uma banda tão singular como são os Labradford, soa a algo científico. Ficcional ou não, a verdade é que sem acentos, e com uma leitura anglo-saxónica, E Luxo So soa a coisa de outro planeta e outros espaços. Lançado entre a obra-prima  Mi Media Naranja (outro título enigmático) e o objecto polido que é Fixed::Context (outro), E Luxo So não é apenas um acto de transição sonora nos Labradford. Ele é também o passo decisivo que os coloca num patamar único de criação onde, despojado dos drones ruidosos dos primeiros álbuns, pontificam minimalismos entrelaçados de composição cuidada. Como acontece nestas coisas, os Labradford esgotam-se em si mesmos, sucumbem à delicadeza precisa nestas coisas, e extinguem-se no pico da invenção.

Caros Labradford, se por acaso estiverem a ler isto (quem dá um título E Luxo So a um disco tem de perceber um pouco de português, não?) quero que saibam que está na altura de voltar, deitar cá para fora mais um álbum e dar uns concertos. Este mundo precisa disso.

Não é apenas a arte abstracta da capa (sombras humanas num túnel) que despoja o álbum de significados, as músicas, cujos títulos são os créditos, são também uma mensagem de ideias desalojadas. Concentremo-nos na música só. Concentremo-nos numa música chamada "Dulcimers Played By Peter Neff. Strings Played" e na forma como as cordas surgem num mundo habitado por repetivismos, paisagens de fundo ao bom estilo de Twin Peaks, e guitarras quase mecânicas e ainda assim a dizerem-nos constantemente, que estas peças, apesar de tudo, são mais canções do que qualquer ideia de cavalgada pós-rock. Concentremo-nos, pois, também na forma como a canção se interrompe com os sons concretos de uma porta que se abre para um quarto ou um retiro privado qualquer. É aqui, de facto, num momento delicioso de simplificação artística, que percebemos que os Labradford já nos transportaram para um outro lugar de onde não queremos sair e nem sequer olhar para trás.