Está é uma primeira tentativa de escrever uma crónica quase em tempo real. O pretexto é um debate no Café Oto promovido pela revista Wire intitulado The Wire Salon: In The Realm Of The Senses: The World According To Sensory Ethnography.
Etnografia Sensorial é algo que combina ciência e arte. Através da documentação sonora e visual procura a essência antropológica e sociológica dos lugares e, porventura, uma possível revelação através de formas artísticas. Do acto em si podem surgir apontamentos de arte sonora ou mesmo daquilo que parece, em muitos casos, por ser algo narrativo ou descritivo, algo a que se pode chamar poesia sonora. É algo ambíguo. Nem sempre é fácil determinar, por exemplo, se uma colagem sonora é algo que se enquadra no âmbito puro da arte sonora ou é mais algo que melhor se enquadra numa ideia de interpretação poética da realidade. Mais difícil se torna ainda quando esses objectos sonoro-artísticos não estão apresentados num contexto de instalação ou performance. As fronteiras entre vários mundos são difíceis de definir e, definitivamente existe uma extensa área cinzenta onde deambulam fragmentos que tanto obedecem a poesia, como a arte, ou mesmo ciência.
O painel apresentado é claramente de cariz académico. Nenhum dos figurinos se dedica à actividade de gravações de campo/field recordings em particular. Apenas o fazem como instrumento de estudo. Além disso, o papel da componente sonora de estudo é apenas um dos elementos entre os outros sensoriais. Alex Taylor sustenta, por exemplo, que nenhum dos sentidos trabalha em exclusivo. No sentido em que toda a actividade realizada é sempre de um conjunto e que há que distinguir entre sensoria, sensações e sensibilidade. Acrescenta ainda que a visão e a audição são claramente os sentidos previlegiados, existindo para estes formas mais avançadas de expressão, seja através da notação musical, linguagem musical, ou escrita, seja através através de recursos tecnológicos que, por exemplo o olfacto não possui. É precisamente aqui que o 'debate' se perde numa tangente de descrições de um mercado de rua. Tendo como plano de fundo os sons captados nesse mesmo lugar, provavelmente gravados com um telemóvel, Alex lê um texto descritivo desse lugar. O texto está repleto de tiques estilísticos, nada soa a científico, e por muito que o autor queira dar o 'ar de sua graça' duvida-se que uma abordagem poética seja o mais importante aqui. A tangente desilude, mas facilita a abertura para a abordagem puramente académica de Nina Wakeford que, claramente desviada da questão sonora e fílmica, tenta explicar os estudos sociólogicos na concepção de produtos tecnológicos e design do produto. O pouco sonoro que existe é apenas uma gravação de 10 minutos de elementos discursivos de um processo empírico.
A verdadeira questão apenas se levanta na parte final. Entre perguntas da plateia que se perdem em considerações de debate académico que vai de encontro aos estudos apresentados, surge uma tentativa de estabelecer um paralelismo entre o âmbito académico da utilização da gravação sonora como ferramenta de estudo, e aquilo a que se assiste mais recentemente em que a pura gravação se revela uma forma de arte e é apresentada como uma edição como outra qualquer do campo musical. É precisamente aqui que, talvez, se possa falar de "formas de estudar aspectos da sociedade para o qual a linguagem comum não se revela suficiente por ser difícil descrever por palavras". É também aqui que se pode ascender a uma comunicação mais abstracta, mas não intelegível, artisticamente falando, cuja forma, ainda espectral, apenas se consegue aproximar de conceitos artísticos e poéticos. Da mesma forma que o artista, ou o poeta, se coloca numa posição de observadores do mundo - como se, na ideia de Agostinho da Silva, nada criasse mas puramente erguesse antenas para sintonizar frequências impossíveis de definir - o gravador de sons é também ele um colector de ideias invisíveis, por vezes inaudíveis, que alimenta um imaginário para o qual não existem explicações vocabulares.
Como quase nunca se encontram respostas nestas ocasiões, sobrevive a questão: como é que se pode interpretar gravações de campo/field recordings? Que ilações podem ser retiradas das gravações realizadas por estudantes de etnografia apresentadas por Ernst Karel ou das hipotéticas, e subjectivas, interpretações de gravações de Steven Feld em Accra? O painel académico respondeu. Falta o painel artístico.