
Descubro nestes dias um podcast intitulado The Sound and The Fury de Andrew Martin. É um fonofóbico que escreve memórias sonoras, ou memórias de ruído, aquilo para o qual ele aceita a definição de "som não desejado". Os textos são apontamentos sonoros requintados. Começa por ruídos do dia-a-dia, ambiências urbanas, e no segundo episódio não hesita em avançar o ataque à música pop e àqueles temas conhecidos por earworms que nos ficam carimbados para todo o sempre. Fala também de música de elevador e do controlo invisível nas lojas de roupa e lugares afins. Fá-lo de uma forma simples e inteligente. E com subtileza introduz, por exemplo, conceitos de ruído branco ao ouvinte menos conhecedor ou as ideias de controlo corporativo no local de trabalho. Fá-lo também com uma ironia e um sentido de humor muito peculiar. Diz coisas do género: "Suponho que é OK uma loja de roupa ter música de fundo. Pode-se sempre evitar essa loja. E suponho que a ideia da loja, por exemplo da Top Shop, é fazer com que pessoas como eu não entrem nem sequer para dar uma olhada".
No terceiro episódio fala de comboios e de estações. Explica como o "ruído" dos anúncios, entre outras mudanças, o fez trocar o comboio pelo carro como meio de transporte predilecto. Foram, nomeadamente, a introdução de carruagens abertas (que acabou com a privacidade que existia nos compartimentos) e a diferente disposição de carruagens, que fizeram com que todo o tipo de anúncios passasse a ser de uma obrigatoriedade absoluta. O maquinista passou a comunicar para todo o comboio, sobre todas as estações (proximidade, chegada, partida, etc) - retirando até mesmo o lugar ao papagaio (verdadeiro!) que anunciava a estação na linha Edimburgo-Glasgow -, sobre o tipo de bilhetes permitido e não permitido, sobre os productos vendidos no bar do comboio; e todo o tipo de funcionário de estação passou a anunciar, por exemplo, a proibição de andar de patins em King's Cross, o cuidado com as plataformas que estão escorredias, o costume de circular pelo lado esquerdo e ficar parado no lado direito das escadas rolantes, o cuidado necessário com os ladrões, etc. Anúncios que podem ser, mas que não necessariamente o são, irritantes.
Numa página oposta deparo-me com um artigo de jornal barato (barato, porque fraco, mas também porque de graça) onde o mundo dos sons, das vozes gravadas, atinge uma dimensão emocional, algo de uma ternura humana imensa. Leio no Evening Standard de 11 de março de 2013 uma notícia sobre Margaret McCollum, viúva do actor Oswald Laurence, que "planeava as viagens de metro de forma a que pudesse ouvir a voz do falecido marido" dizer mind the gap. Em novembro do ano passado a voz foi retirada dos altifalantes. O pessoal da estação em causa, Embakment, diz que é uma "dificuldade técnica" mas a viúva continua a viver com o vazio enorme de quando se dirige para casa não poder mais fazer um desvio na trajectória para passar naquela estação e ouvir aquela voz tão especial que permanece clara e perceptível mesmo quando se está dentro do comboio: mind the gap, mind the gap, mind the gap...