um blogfolio de coisas sonoras

12.3.13

Nick Cave and The Bad Seeds - Push The Sky Away



Nick Cave levanta-se todas as manhãs, por volta das sete, e sai para o escritório. Leva no bolso cigarros e um caderno preto. Há dias em que escreve, outros em que se senta ao piano e desenha melodias simples, esquissos que mais tarde ganham corpo em estúdio com os Bad Seeds. Noutros dias, quando a semente não dá rebentos, perde-se nas páginas do Wikipédia e no fascínio pseudo-virginal por Anna Montana e Miley Cyrus. Imagina-as, quiçá, em sítios como a Jubilee Street, meninas da Disney feitas mulheres da noite escura. Inventa-lhes uma história. Uma murder ballad, quase sempre com um passado, mas nunca com um futuro. Quando isso acontece, os dias são compridos e a hora-extra é uma penitência criativa. Por vezes, quando chega a casa, depois de mais uma sessão de entrevistas, que detesta, encontra a mulher, Susie Bick, numa sessão fotográfica para um revista e, no fruto do acaso, eis que nasce a capa de um novo disco.

Na década de 90 os Bad Seeds eram já tudo aquilo que Cave poderia querer: a máquina eléctrica de Let Love In, o combo de bandas-sonoras western de Murder Ballads, a delicada presença nos hemisférios de um piano em The Boatman's Call. Alguns anos depois, os Bad Seeds perderam duas figuras centrais: primeiro Blixa Bargeld, depois de Nocturama (2003); um pouco mais tarde, Mick Harvey, no período pós Dig Lazarus Dig (2008). Em 2013, findas as aventuras com os Grinderman, Cave regressa a estúdio com os Bad Seeds e sem guitarristas. Tal foi a condição. Mas com Ellis tudo se arranja. Se por um lado, se pode especular que o protagonismo crescente de Warren Ellis no percurso dos Bad Seeds (e também, mais até, nos projectos a solo de Cave) tenha tido alguma influência no desligar de Harvey, é também no violinista dos Dirty Three que reside, agora, o magma criativo dos Bad Seeds e a aliança musical de Cave.

Assim, na falta da electricidade sónica de Bargeld, Ellis experimenta loops no violino dedilhado, ou numa pequena guitarra de quatro cordas; na falta da delicada teia sonora de Harvey, quer como guitarrista, quer como arranjador das partes orquestradas, Ellis apresenta um violino cada vez mais ao estilo de um Dickon Hinchliffe dos Tindersticks (eis um outro exemplo de uma banda que sobrevive com sabedoria à lacuna de elementos fulcrais); na falta da dinâmica e químicas explosivas da dupla Bargeld-Harvey, Ellis mostra tudo aquilo que ele sabe fazer bem nos Dirty Three. A isto tudo acrescenta ainda um virtude de simplicidade de arranjos e uma atitude destemida no uso de sons de fábrica do microkorg (Push The Sky Away, Wide Lovely Eyes).

Push The Sky Away não é nenhum Boatman's Call, nem nenhum No More Shall We Part, mas é um bom disco. Muito bom disco. Um disco de quem que, por muito que se desleixe, por muito que perca parceiros únicos, já não consegue fazer maus discos. Nem deixar de desmascar os fantasmas de censura artística que persitem, que desfocam a imagem de uma mulher nua na capa de um disco e apagam as cenas mais explícitas no video de Jubilee Street. Decerto que não o fariam com a Anna Montana e a Miley Cyrus.