um blogfolio de coisas sonoras

21.3.13

Low - The Invisible Way


No início, os Low eram o trio disposto a enfrentar uma plateia de punks abalados pelo mainstream grunge dos idos inícios de 90s, com um punhado de canções melancólicas, feitas de um minimalismo perturbante e um fio de palavras cantadas. Convenceram-se a si mesmos (e toda a gente) que tocar aquelas canções, o mais lento e baixo possível, seria a forma extrema,  de chamar atenção para um universo paralelo por oposição, e conseguir todo o silêncio para um ouvido atento. Embora não sendo bem a mesma coisa, tal atitude é algo que se compagina, por uma certa analogia, à ideia de Cage em 4'33''. Primeiro porque vira tudo do avesso, segundo porque naquele silêncio, naquela vagar sussurado, existe um magma espiritual intenso e imenso.

Estes Low de agora já não são bem os mesmos dessa altura em que pontificavam canções feitas de carne como Lazy, Words, Violence ou Shame. Nem são bem os mesmos da fase da Kranky (provalvelmente a melhor deles) e da trilogia fabulosa Secret Name > Things We Lost In The Fire > Trust. Estes são os Low que se reinventaram na SubPop com The Great Destroyer (e isto não é nada mau num percurso de uma carreira com é a deles, antes pelo contrário) e que se amansaram com um baixista ersatz demasiado chegado às linhagens convencionais (e isto não é necessariamente algo bom), mas que continuam a ser as duas vozes perfeitas de Mimi e Alan em canções simples e com uma sabedoria rara de construção pop. Claro que em palco os Low são os mesmos de sempre e todas as canções de um qualquer alinhamento, mesmo separadas pelo tempo, fazem todo o sentido num todo repleto de dinâmicas intensas, silêncios e explosões eléctricas.

Em The Invisible Way o trio dá continuidade à abordagem dos álbuns mais recentes e está longe de ideias  de transição com múltiplas arestas, como aconteceu, por exemplo, com Drums and Guns. Nota-se sim uma descontração na concepção de um simples conjunto de meras canções como entidades de um todo corpóreo. As emoções continuam à flor da pele e a espiritualidade dos cânticos é algo que mitifica a identidade de uma banda que, a par de uns Spiritualized, nunca teve problemas em colocar palavras religiosas puras em margens abstractas.    

15.3.13

Mind the gap


Descubro nestes dias um podcast intitulado The Sound and The Fury de Andrew Martin. É um fonofóbico que escreve memórias sonoras, ou memórias de ruído, aquilo para o qual ele aceita a definição de "som não desejado". Os textos são apontamentos sonoros requintados. Começa por ruídos do dia-a-dia, ambiências urbanas, e no segundo episódio não hesita em avançar o ataque à música pop e àqueles temas conhecidos por earworms que nos ficam carimbados para todo o sempre. Fala também de música de elevador e do controlo invisível nas lojas de roupa e lugares afins. Fá-lo de uma forma simples e inteligente. E com subtileza introduz, por exemplo, conceitos de ruído branco ao ouvinte menos conhecedor ou as ideias de controlo corporativo no local de trabalho. Fá-lo também com uma ironia e um sentido de humor muito peculiar. Diz coisas do género: "Suponho que é OK uma loja de roupa ter música de fundo. Pode-se sempre evitar essa loja. E suponho que a ideia da loja, por exemplo da Top Shop, é fazer com que pessoas como eu não  entrem nem sequer para dar uma olhada".

No terceiro episódio fala de comboios e de estações. Explica como o "ruído" dos anúncios, entre outras mudanças, o fez trocar o comboio pelo carro como meio de transporte predilecto. Foram, nomeadamente, a introdução de carruagens abertas (que acabou com a privacidade que existia nos compartimentos) e a diferente disposição de carruagens, que fizeram com que todo o tipo de anúncios passasse a ser de uma obrigatoriedade absoluta. O maquinista passou a comunicar para todo o comboio, sobre todas as estações (proximidade, chegada, partida, etc) - retirando até mesmo o lugar ao papagaio (verdadeiro!) que anunciava a estação na linha Edimburgo-Glasgow -, sobre o tipo de bilhetes permitido e não permitido, sobre os productos vendidos no bar do comboio; e todo o tipo de funcionário de estação passou a anunciar, por exemplo, a proibição de andar de patins em King's Cross, o cuidado com as plataformas que estão escorredias, o costume de circular pelo lado esquerdo e ficar parado no lado direito das escadas rolantes, o cuidado necessário com os ladrões, etc. Anúncios que podem ser, mas que não necessariamente o são, irritantes.

Numa página oposta deparo-me com um artigo de jornal barato (barato, porque fraco, mas também porque de graça) onde o mundo dos sons, das vozes gravadas, atinge uma dimensão emocional, algo de uma ternura humana imensa. Leio no Evening Standard de 11 de março de 2013 uma notícia sobre Margaret McCollum, viúva do actor Oswald Laurence, que "planeava as viagens de metro de forma a que pudesse ouvir a voz do falecido marido" dizer mind the gap. Em novembro do ano passado a voz foi retirada dos altifalantes. O pessoal da estação em causa, Embakment, diz que é uma "dificuldade técnica" mas a viúva continua a viver com o vazio enorme de quando se dirige para casa não poder mais fazer um desvio na trajectória para passar naquela estação e ouvir aquela voz tão especial que permanece clara e perceptível mesmo quando se está dentro do comboio: mind the gap, mind the gap, mind the gap...

12.3.13

Nick Cave and The Bad Seeds - Push The Sky Away



Nick Cave levanta-se todas as manhãs, por volta das sete, e sai para o escritório. Leva no bolso cigarros e um caderno preto. Há dias em que escreve, outros em que se senta ao piano e desenha melodias simples, esquissos que mais tarde ganham corpo em estúdio com os Bad Seeds. Noutros dias, quando a semente não dá rebentos, perde-se nas páginas do Wikipédia e no fascínio pseudo-virginal por Anna Montana e Miley Cyrus. Imagina-as, quiçá, em sítios como a Jubilee Street, meninas da Disney feitas mulheres da noite escura. Inventa-lhes uma história. Uma murder ballad, quase sempre com um passado, mas nunca com um futuro. Quando isso acontece, os dias são compridos e a hora-extra é uma penitência criativa. Por vezes, quando chega a casa, depois de mais uma sessão de entrevistas, que detesta, encontra a mulher, Susie Bick, numa sessão fotográfica para um revista e, no fruto do acaso, eis que nasce a capa de um novo disco.

Na década de 90 os Bad Seeds eram já tudo aquilo que Cave poderia querer: a máquina eléctrica de Let Love In, o combo de bandas-sonoras western de Murder Ballads, a delicada presença nos hemisférios de um piano em The Boatman's Call. Alguns anos depois, os Bad Seeds perderam duas figuras centrais: primeiro Blixa Bargeld, depois de Nocturama (2003); um pouco mais tarde, Mick Harvey, no período pós Dig Lazarus Dig (2008). Em 2013, findas as aventuras com os Grinderman, Cave regressa a estúdio com os Bad Seeds e sem guitarristas. Tal foi a condição. Mas com Ellis tudo se arranja. Se por um lado, se pode especular que o protagonismo crescente de Warren Ellis no percurso dos Bad Seeds (e também, mais até, nos projectos a solo de Cave) tenha tido alguma influência no desligar de Harvey, é também no violinista dos Dirty Three que reside, agora, o magma criativo dos Bad Seeds e a aliança musical de Cave.

Assim, na falta da electricidade sónica de Bargeld, Ellis experimenta loops no violino dedilhado, ou numa pequena guitarra de quatro cordas; na falta da delicada teia sonora de Harvey, quer como guitarrista, quer como arranjador das partes orquestradas, Ellis apresenta um violino cada vez mais ao estilo de um Dickon Hinchliffe dos Tindersticks (eis um outro exemplo de uma banda que sobrevive com sabedoria à lacuna de elementos fulcrais); na falta da dinâmica e químicas explosivas da dupla Bargeld-Harvey, Ellis mostra tudo aquilo que ele sabe fazer bem nos Dirty Three. A isto tudo acrescenta ainda um virtude de simplicidade de arranjos e uma atitude destemida no uso de sons de fábrica do microkorg (Push The Sky Away, Wide Lovely Eyes).

Push The Sky Away não é nenhum Boatman's Call, nem nenhum No More Shall We Part, mas é um bom disco. Muito bom disco. Um disco de quem que, por muito que se desleixe, por muito que perca parceiros únicos, já não consegue fazer maus discos. Nem deixar de desmascar os fantasmas de censura artística que persitem, que desfocam a imagem de uma mulher nua na capa de um disco e apagam as cenas mais explícitas no video de Jubilee Street. Decerto que não o fariam com a Anna Montana e a Miley Cyrus.

8.3.13

O Espaço da Etnografia Sensorial

Está é uma primeira tentativa de escrever uma crónica quase em tempo real. O pretexto é um debate no Café Oto promovido pela revista Wire intitulado The Wire Salon: In The Realm Of The Senses: The World According To Sensory Ethnography.

Etnografia Sensorial é algo que combina ciência e arte. Através da documentação sonora e visual procura a essência antropológica e sociológica dos lugares e, porventura, uma possível revelação através de formas artísticas. Do acto em si podem surgir apontamentos de arte sonora ou mesmo daquilo que parece, em muitos casos, por ser algo narrativo ou descritivo, algo a que se pode chamar poesia sonora. É algo ambíguo. Nem sempre é fácil determinar, por exemplo, se uma colagem sonora é algo que se enquadra no âmbito puro da arte sonora ou é mais algo que melhor se enquadra numa ideia de interpretação poética da realidade. Mais difícil se torna ainda quando esses objectos sonoro-artísticos não estão apresentados num contexto de instalação ou performance. As fronteiras entre vários mundos são difíceis de definir e, definitivamente existe uma extensa área cinzenta onde deambulam fragmentos que tanto obedecem a poesia, como a arte, ou mesmo ciência.

O painel apresentado é claramente de cariz académico. Nenhum dos figurinos se dedica à actividade de gravações de campo/field recordings em particular. Apenas o fazem como instrumento de estudo. Além disso, o papel da componente sonora de estudo é apenas um dos elementos entre os outros sensoriais. Alex Taylor sustenta, por exemplo, que nenhum dos sentidos trabalha em exclusivo. No sentido em que toda a actividade realizada é sempre de um conjunto e que há que distinguir entre sensoria, sensações e sensibilidade. Acrescenta ainda que a visão e a audição são claramente os sentidos previlegiados, existindo para estes formas mais avançadas de expressão, seja através da notação musical, linguagem musical, ou escrita, seja através através de recursos tecnológicos que, por exemplo o olfacto não possui. É precisamente aqui que o 'debate' se perde numa tangente de descrições de um mercado de rua. Tendo como plano de fundo os sons captados nesse mesmo lugar, provavelmente gravados com um telemóvel, Alex lê um texto descritivo desse lugar. O texto está repleto de tiques estilísticos, nada soa a científico, e por muito que o autor queira dar o 'ar de sua graça' duvida-se que uma abordagem poética seja o mais importante aqui. A tangente desilude, mas facilita a abertura para a abordagem puramente académica de Nina Wakeford que, claramente desviada da questão sonora e fílmica, tenta explicar os estudos sociólogicos na concepção de produtos tecnológicos e design do produto. O pouco sonoro que existe é apenas uma gravação de 10 minutos de elementos discursivos de um processo empírico.

A verdadeira questão apenas se levanta na parte final. Entre perguntas da plateia que se perdem em considerações de debate académico que vai de encontro aos estudos apresentados, surge uma tentativa de estabelecer um paralelismo entre o âmbito académico da utilização da gravação sonora como ferramenta de estudo, e aquilo a que se assiste mais recentemente em que a pura gravação se revela uma forma de arte e é apresentada como uma edição como outra qualquer do campo musical. É precisamente aqui que, talvez, se possa falar de "formas de estudar aspectos da sociedade para o qual a linguagem comum não se revela suficiente por ser difícil descrever por palavras". É também aqui que se pode ascender a uma comunicação mais abstracta, mas não intelegível, artisticamente falando, cuja forma, ainda espectral, apenas se consegue aproximar de conceitos artísticos e poéticos. Da mesma forma que o artista, ou o poeta, se coloca numa posição de observadores do mundo -  como se, na ideia de Agostinho da Silva,  nada criasse mas puramente erguesse antenas para sintonizar frequências impossíveis de definir -  o gravador de sons é também ele um colector de ideias invisíveis, por vezes inaudíveis, que alimenta um imaginário para o qual não existem explicações vocabulares.

Como quase nunca se encontram respostas nestas ocasiões, sobrevive a questão: como é que se pode interpretar gravações de campo/field recordings? Que ilações podem ser retiradas das gravações realizadas por estudantes de etnografia apresentadas por Ernst Karel ou das hipotéticas, e subjectivas, interpretações de gravações de Steven Feld em Accra? O painel académico respondeu. Falta o painel artístico.


1.3.13

The End Of The Cycle

This is the end of the cycle. For the past 300ish days I've published one playlist everyday. It's hard to keep the pace and the quality sometimes is not the best. Therefore, from now on, I will create no more than one playlist per week and some exclusive ones when required. I hope you like it.