São algumas as parecenças físicas entre Frank Silva e Jozef Van Wissen. São ambos magros, altos, e de longos cabelos. Frank Silva tornou-se o Killer Bob de Twin Peaks por acidente. Assim o determinou David Lynch ao ver o reflexo no espelho do técnico durante as filmagens. Um erro que lhe valeu uma rara aparição como actor e a criação totalmente improvisada de uma enigmática criatura tipicamente lynchiana. Jozef Van Wissen é parecido com o Killer Bob. Ou melhor, poderia ser o Killer Bob. Mas não. É um músico que toca alaúde. De uma forma pouco convencional. Minimalista. Muito minimalista. E se há algo que o contextualize no mundo do cinema é o facto de ter gravado um disco com o realizador Jim Jarmusch:Concerning The Entrance Into Eternity (Important Records). Ora nem mais. Jim Jarmusch. Nada de estranhar vindo de “um tocador de alaúde com uma atitude punk-rock”. Do encontro resultam uma série de composições para um alaúde solitário (Wissen) a pairar num fluxo de ressonâncias e feedbacks de guitarra eléctrica (Jarmusch). A ausência desse fluxo parece ser a única razão na insistência de Wissen em aproximar demasiado o alaúde do microfone, produzindo uma ressonância desconfortável. Mas a atitude punk de Wissen não fica por aqui. Dois momentos a assinalar: o primeiro durante uma peça tocada com slide (alguém alguma vez se terá atrevido a isso?) e o segundo quando Wissen se põe de pé para numa espécie de postura metaleira a dar uma outra fotografia ao instrumento medieval. Mas só isso. Tudo o resto soa a uma presença demasiado solitária para ser convincente.
Brethren of the Free Spirit é o nome do projecto-colaboração de Jozef Van Wissen e James Blackshaw. Tal, embora expectável, não teve lugar no Café Oto. Acabou um e depois veio outro. Entre eles, uma parede de free jazz de Coltrane a fazer de invisível divisória. Mas se Wissen apresenta no Café Oto um álbum recentemente lançado de uma forma desfragmentada, sem a outra metade, Blackshaw não precisa muito mais do que uma Guild de doze cordas para mostrar as recentes composições para guitarra clássica e piano de Love Is The Plan, The Plan Is Death (Important Records). Não foi preciso chegar à penúltima Cross para perceber que existe aqui uma outra figura de composição, mais distante do drone e do repetitivismo no qual Blackshaw tem sido um lídimo activista. Nem foi preciso assistir à troca de palavras entre o músico e a sua mãe (os pais de Blackshaw estavam presentes na plateia) para perceber que, apesar de já ter um caroço discográfico relevante e seguidores fiéis, o Café Oto é dos poucos sítios onde consegue ter uma plateia seriamente composta. Uma audiência que aceita o tempo que Blackshaw demora a afinar a guitarra entre as músicas como sendo parte do acto inteiro. Uma plateia que sabe que do encontro entre um mestre e um discípulo (James Blackshaw e Lubomyr Melnyk colaboraram recentemente) há sempre um paradigma que estala. Qual não se percebe muito bem. Lembremo-nos apenas que isto não é bem minimalismo mas, pelo contrário, maximalismo.