Em Her Noise: Feminisms And The Sonic, Pauline Oliveros é já uma voz de certezas, pronta a desmistificar qualquer ideia de marginalidade da mulher enquanto exploradora de sons e territórios musicais desconhecidos. Quase a completar 80 anos, Oliveros observa-se em retrospectiva e projecta ideias de futuro.
Parte Primeira: performance a solo
Na música improvisada de Oliveros existe um núcleo que determina o duelo consciência/inconsciência. O título da peça é a condicionante na qual a perfomer mergulha e busca os sons possíveis de expressão. É no debate constante entre vida e morte que Oliveros encontra uma plataforma onde tenta abarcar e compreender o desejo de procura existencial nos sons e nas suas formas de expressão. Daí talvez a peça escolhida ter o título Listening For Life/Death Energies numa assumida invocação da audição como o primeiro sentido a desenvolver-se no feto e o primeiro a desligar-se depois da morte. Ao introduzir a ideia de audição em toda a longitude das energias de vida/morte, Oliveros celebra uma vez mais a filosofia de Deep Listening , meditação para espaços resonantes e reverberados que introduziu em 1991. Listening For Life/Death Energies é tocada no V-Accordian, instrumento digital que permite uma combinação única entre sons puramente digitais e a elasticidade física de um instrumento de foles, de energias feitas de ar. Existe aqui quer uma enérgica dependência do corpo enquanto máquina orgânica, quer uma não descabida analogia entre o ar do fole e o respirar de um corpo com vida.
Parte Segunda: a encarnação sonora da mulher
A palestra de Pauline Oliveros projecta-se no futuro de seis mulheres e numa eventual mudança de paradigma. São mulheres que, de uma forma única, procuram encarnar a representação sonora e exprimir o “ruído” (Her Noise) enquanto indíviduo que se afirma num contexto cada vez mais amplo e, paradoxalmente, fechado. A questão surge: como é que a arte-trabalho destas mulheres será preservada? Depois de uma apresentação sumária de cada uma das compositoras – Ximena Alarcón com Sounding Underground;Ellen Fullman e o Long String Instrument; os Sonic Portraits de Brenda Hutchison, os espaços improvisados de Maria Chavez; o Blue Road de Jaclyn Heyen; e as novas representações de discurso de Clara Tomaz – Oliveros deixa um apontamento tecnológico de futuro: um concerto com hologramas. Aqueles são apenas alguns exemplos entre muitos outros. Existe entre eles um denominador comum de género que, se por um lado se afirma naturalmente por ele mesmo, por outro rebobina o ser-mulher a um estado espiritual que antecede qualquer formação corporal e o define indíviduo sem género. A sessão final de perguntas descentra-se disto. Antes se espraia em tentativas de entendimento da coexistência de humanitarismo e tecnologia no percurso de Oliveros.
Parte Terceira: Valerie Solanas + Marylin Monroe
Duas mulheres. Desespero existencial em comum. Valerie Solanas viu-lhe negada a expansão artística por Andy Warhol e, por isso, tentou matá-lo; Marylin Monroe nunca se viu verdadeiramente reconhecida como actriz e, supostamente, cometeu suicídio. Foi com esta observação comum e com a luz do SCUM Manifesto de Solanas que Oliveros decidiu incorporar aquelas duas figuras na estrutura de uma nova peça intitulada To Valerie Solanas and Marilyn Monroe in Recognition of Their Desperation (1970). Existe aqui uma iniquidade dupla: a primeira no sentido de que ambas parecem ter sido encarceradas na armadilha da desigualdade enquanto mulheres; a segunda no desiquilíbrio de projecções artísiticas entre um ícone mundanamente reconhecido (Marilyn Monroe) e o trabalho marginal não reconhecido, um manifesto pouco levado a sério (Valerie Solanas). Quarenta e dois anos depois da sua estreia, To Valerie Solanas and Marilyn Monroe in Recognition of Their Desperation foi tocada por um ensemble de 14 mulheres no amplo espaço do Turbine Hall. Bela celebração.
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