um blogfolio de coisas sonoras

20.5.12

Independent Label Market

A ideia de mercado de música brota de uma banana da mesma forma que a ideia de música pop tem a sua génese da capa de um disco célebre de Andy Warhol. A banana é, na alegoria daqueles que apreciam música e design, símbolo do cruzamento das artes visuais e musicais. Foi-nos dada em 1967 com o célebre The Velvet Undeground & Nico e, desde então, aquela peça de fruta tornou-se um símbolo. Símbolo de quê? De um imaginário artístico de cultura popular baseada em repetição e de um certo conceptualismo que alberga objectos do dia-a-dia nos escaparates das galerias de arte. A peça de fruta torna-se um símbolo, um objecto, despido do seu significado mais básico, mais directo. Pergunte-se a quem nunca ouviu The Velvet Undeground, e pouco ou nada ouviu falar de Pop Art ou de Andy Warhol, que tipo de música adivinha naquele disco da banana. Certamente ninguém conseguirá adivinhar o repetitivismo psicadélico e hipnótico de Heroin, a precisão sónica feita de psicotrópicos de Venus In Furs, ou mesmo o rock sujo metralhado de Waiting For The Man. Mesmo aqueles que conhecem bem o disco sentem decerto um abismo entre o conteúdo e a superfície. Contudo, esse abismo faz sentido. Da mesma forma que aquela banana esconde um território musical introspectivo e único, toda a Pop Arte de Warhol, ao contrário do que é vulgarmente entendido, é uma parede falsa para um submundo muito mais rico e carregado de emoções fortes e, muitas vezes, obscuro.

Não parece, contudo, ter sido essa a razão pela qual a Fire Recordsse lembrou de oferecer bananas no Independent Label Market de sábado em Spitalfields. Foi muito mais uma ideia pura de mercado, de estar a vender produtos musicais num local dedicado à mais variada diversidade de bens de consumo. Em tempo de crise discográfica, não há nada melhor do que uma banana com um código para download de uma mixtape. Por incrível que pareça, é num acto aparentemente ingénuo (é difícil de crer que tenha havido alguma intenção warholiana na oferta de bananas) que reside o núcleo de reflexão desta nova vaga, se é que lhe poderemos chamar de nova vaga, da indústria da música. É notória a procura da dimensão física/corpórea do produto musical – álbuns de tiragem limitada, uma extensa aposta no vinil – com toda a pureza das intenções no ir de encontra aos apreciadores de música. Mas também são claros os limites dessa expansão, podendo-se mesmo especular sobre a estagnação dos nichos. Para isso muito contribui o preço dos produtos. Poucas são as editoras que, numa feira de música, apresentam descontos consideráveis. Talvez a Rocket Girlquando vende The Coral Sea de Patti Smith e Kevin Shields a £5 ou o espírito de negociação quando se compram 3 ou mais discos de uma vez na Bella Union. A Soul Jazz Records, por exemplo, apresenta preços estandardizados de £10, um desconto tão só aparente quando os volumes das colectâneas Deutsche Elektronische Musik estão a £9.99 online. Dentro de uma certa perspectiva os preços são bons. O produto vale aquilo que é. O problema, contudo, não reside nisso. Reside antes na tendência que existe nos consumidores de não estarem dispostos a pagar por algo que tende, nuns casos, a ser gratuito, noutros, a ocupar demasiado espaço numa era de objectos não-físicos, e ainda noutros, a perder o interesse na imensidão de oferta da nova era da internet. Neste sentido os preços são maus. De que vale ter o novo disco dos Lambchop a £10 quando a versão limitada com DVD se encontra a £5 na Fopp ou no Ebay? Isto diz-nos o que é possível no mercado e dá a entender que algo está errado. Aquilo que a internet trouxe de bom, ou seja, o fácil acesso a objectos musicais, tem sido contrariada por uma certa gratuidade dessa facilidade, o que leva o apreciador de música a perder o interesse pelo conteúdo em sim. As tendências de agora são várias. Uma é uma clara preferência por objectos completos que sejam mais do que uma rodela dentro de uma caixa de plástico. O design, o aspecto artístico do objecto, o grafismo, a procura de materiais mais tácteis adquirem cada vez mais preponderância. Outra é a procura de uma identidade musical, algo que se tem afirmado cada vez mais com as editoras independentes que vêm o seu campo de acção alargar-se substancialmente na promoção de concertos e na aposta em merchandising nos mesmos. São tempos conturbados, é certo, mas é a mudança de paradigma que impulsiona a criatividade e uma eventual destrinça, cada vez mais firme, entre aqueles que entendem a música e aqueles que são apenas consumidores de entretenimento.

Lista de editoras presentes:
Analogue Enhanced Digital / Angular / Because / Bella Union /Borstal Beat /Brownswood / Buzzin’ Fly / Chess Club / Critical Heights / Domino / Double Denim / Fabric / Fat Cat / Fire Records /Fortuna Pop! / Full Time Hobby /Heavenly / House Anxiety / “How Soon Is Now?” (book stall) / Lanark Records/ Lex / Lucky Number / Mais Um Discos / Moshi Moshi / New Music Club / Ninja Tune / O. Genesis /One Little Indian / Phantasy Sound / Pink Mist Collective / Proville / Rocket Girl / Roundtable / R&S / Something In Construction / Sonic Cathedral / Soul Jazz / Sounds Of Sweet Nothing / Soundway / Stolen Recordings / Sunday Best / Transgressive / Warp / Wichita / XL