

A temporada de concertos de 2014 começa com o canadiano Eric Chenaux, guitarrista que tem lançado discos pela prestigiada Constellation. Vem de Paris, onde vive, para o café Oto, e não demorou muito tempo a convencer uma sala cheia que é possível juntar melodia, uma voz soul e experimentalismos sónicos, e com isso ter identidade e estilo. A sua guitarra Gibson vintage eléctrica tem duas saídas de jack, não por capricho sonoro, mas para criar uma espécie de dupla personalidade de vozes. Uma é a voz de uma guitarra manipulada com loops, ou melhor, acordes que ficam congelados (parece usar um pedal freeze) e que criam a base da canção, soando muitas vezes como aquilo que se costuma fazer com os pedais de um órgão. Outra, é uma voz livre a deambular pelas malhas de free jazz e melodias distorcidas, a fazer lembrar os solos ganzados de Hendrix. Interessante a forma como Chenaux controla essas duas vozes com dois pedais de volume criando momentos de vaivém e crossfade entre ambas. Interessante também a forma como ele consegue colocar a sua própria voz no topo disso e produzir momentos de canção, sem nunca fazer disso um elemento fulcral na sua música. O equilíbrio é perfeito e Chenaux tem tudo para criar uma interseção de duas possibilidades que aparentemente seria opostas entre si. Por um lado, dá a sua própria voz à melodia, deixando satisfeitos os mais impacientes com devaneios experimentalistas. Por outro lado, essas experimentações não o deixam cair no lugar comum dos virtuosos e nas canções óbvias das belas vozes.
Richard Youngs é de uma espécie completamente diferente. Ao longo da carreira tem produzido imenso, quer a solo, quer em colaborações, e toda a diversidade que tem apresentado deixa-nos sempre entregues à incerteza. Desta vez traz canções. A primeira é um cântico com viola de cerca de 10 minutos (talvez mais?) de um acorde só. Aos poucos vai se tornando mantra e Youngs parece querer criar um certo transe místico vindo das raízes melódicas tristes. Depois do aplauso, enconsta a guitarra para cantar apenas. Mais sentimento, mais repetição, mais desconforto. Por vezes faz pausas e deixa o lugar em silêncio. Ao perceber que está lugar perfeito para esses desafios, Youngs estende ainda mais esses silêncios e faz do seu próprio desconforto uma arma desafiante, seja berrando, seja batendo com os pés no chão. Depois da segunda longa peça, resolve falar com o público e explicar o que quer fazer ou que estava a pensar fazer. Ao colocar-se na incerteza e na vulnerabilidade, entrega-se quase por completo a uma performance crua, por vezes mais perto de um apontamento humorístico do que um concerto. Youngs não é um virtuoso, nem tem uma voz absoluta. Mas existe ali um fervor estranho pela música como uma sensibidade puramente artística. E é aqui que Youngs ganha âncora. Tanto deixa uma música pendurada por não lhe sair como deveria, ou como queria que saísse, como regressa para um encore em que toda gente canta o drone de fundo para a entrega espiritual definitiva.