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14.1.14
Eric Chenaux + Richard Youngs no café Oto 11.1.2014


A temporada de concertos de 2014 começa com o canadiano Eric Chenaux, guitarrista que tem lançado discos pela prestigiada Constellation. Vem de Paris, onde vive, para o café Oto, e não demorou muito tempo a convencer uma sala cheia que é possível juntar melodia, uma voz soul e experimentalismos sónicos, e com isso ter identidade e estilo. A sua guitarra Gibson vintage eléctrica tem duas saídas de jack, não por capricho sonoro, mas para criar uma espécie de dupla personalidade de vozes. Uma é a voz de uma guitarra manipulada com loops, ou melhor, acordes que ficam congelados (parece usar um pedal freeze) e que criam a base da canção, soando muitas vezes como aquilo que se costuma fazer com os pedais de um órgão. Outra, é uma voz livre a deambular pelas malhas de free jazz e melodias distorcidas, a fazer lembrar os solos ganzados de Hendrix. Interessante a forma como Chenaux controla essas duas vozes com dois pedais de volume criando momentos de vaivém e crossfade entre ambas. Interessante também a forma como ele consegue colocar a sua própria voz no topo disso e produzir momentos de canção, sem nunca fazer disso um elemento fulcral na sua música. O equilíbrio é perfeito e Chenaux tem tudo para criar uma interseção de duas possibilidades que aparentemente seria opostas entre si. Por um lado, dá a sua própria voz à melodia, deixando satisfeitos os mais impacientes com devaneios experimentalistas. Por outro lado, essas experimentações não o deixam cair no lugar comum dos virtuosos e nas canções óbvias das belas vozes.
Richard Youngs é de uma espécie completamente diferente. Ao longo da carreira tem produzido imenso, quer a solo, quer em colaborações, e toda a diversidade que tem apresentado deixa-nos sempre entregues à incerteza. Desta vez traz canções. A primeira é um cântico com viola de cerca de 10 minutos (talvez mais?) de um acorde só. Aos poucos vai se tornando mantra e Youngs parece querer criar um certo transe místico vindo das raízes melódicas tristes. Depois do aplauso, enconsta a guitarra para cantar apenas. Mais sentimento, mais repetição, mais desconforto. Por vezes faz pausas e deixa o lugar em silêncio. Ao perceber que está lugar perfeito para esses desafios, Youngs estende ainda mais esses silêncios e faz do seu próprio desconforto uma arma desafiante, seja berrando, seja batendo com os pés no chão. Depois da segunda longa peça, resolve falar com o público e explicar o que quer fazer ou que estava a pensar fazer. Ao colocar-se na incerteza e na vulnerabilidade, entrega-se quase por completo a uma performance crua, por vezes mais perto de um apontamento humorístico do que um concerto. Youngs não é um virtuoso, nem tem uma voz absoluta. Mas existe ali um fervor estranho pela música como uma sensibidade puramente artística. E é aqui que Youngs ganha âncora. Tanto deixa uma música pendurada por não lhe sair como deveria, ou como queria que saísse, como regressa para um encore em que toda gente canta o drone de fundo para a entrega espiritual definitiva.
13.1.14
12.1.14
11.1.14
10.1.14
glassglue - Fantods
Foi nas fundações da Klangbad, de Jochen Irmler (Faust), que os glassglue encontraram espaço. Parece fazer sentido. É que os glassglue nunca foram muito dos dias de hoje, nem nunca foram dados a ambiências retro. Pairaram sempre ali algures num meio-lugar, num não saber o que é aquilo, numa vertigem de possibilidades aéreas sem nunca existir poiso algum. Mesmo com toda a sonoridade de outras décadas, e o fantasma sempre presente de Captain Beefheart, nunca os glassglue foram um aglomerado de influências. Tal nunca seria possível vindo destes quatro tipos de raízes afirmadas no seu próprio mundo solipsista. Às vezes, parecem génios incapazes de estar juntos no mesmo lugar por mais de dez minutos (talvez isso explique a razão pela qual as músicas sejam tão curtas) e apenas conseguimos imaginar neles jams de três minutos, durante as quais cada um toca para si, ou pior, tenta destruir o que o outro está a fazer. Provavelmente, estamos enganados. É música demasiado pensada. Daquele laboratório nascem coisas com nexo improváveis e, às vezes, até algum romantismo psicadélico (sim, Like the Shadow Of a Fly, continua a ser a música preferida por estes lados), uma mistura de punk, jazz e, porque não, krautrock. Quase todo o mundo dos glassglue está neste disco conciso e pragmático (o que seria deles se não o gravassem? o que seria destas músicas sem o registo que as inscreve?). Só não está todo porque a gravação e produção não são perfeitas. A título de exemplo: Embarassing, Spiral Stair ou Steal Your Time No More não soam em disco como deveriam soar. Parecem parcas de energia e afogadas em efeitos de estúdio que já pouco se usam. Vindo dos glassglue só nos cabe perguntar: terá sido propositado?
9.1.14
8.1.14
7.1.14
6.1.14
5.1.14
4.1.14
3.1.14
2.1.14
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