Trata-se de um filme sobre um homem que grava sons nas paisagens bucólicas da Irlanda. Chama-se Silêncio. Título simples. Quase irónico, porque quem grava sons não quer silêncios. Ou quer? Quer, pelo menos, uma certa solidão ou o direito a não ser importunado. O que lhe importa é poder ler os lugares, escutá-los na sua dimensão sonora, e talvez descobrir a partir desses retratos algo mais profundo, uma identidade desse lugar e, claro, uma ideia de pertença. Neste caso de alguém que regressa às origens depois de 15 anos em Berlim.
Por muito que a componente sonora seja de uma importância imensa num filme, ela é sempre vista num plano secundário. Porque se situa no plano do não-visível, talvez, ou simplesmente porque o visionamento das coisas é de tal forma importante que não existe espaço para outros elementos sensoriais. Não se esqueça, também, que as gravações de campo também fazem parte da realização fílmica. Dai não ser de todo descabido mencionar aqui um outro filme que se centra num personagem que grava sons. Em Lisbon Story, de Wim Wenders, o artista é o homem dos sons. É ele que grava os sons da cidade, das pessoas, da música dos Madredeus, dos espaços silenciosos e dos ruidosos. No fundo, documenta uma cidade, um tempo, um filme, no fundo documenta-se a si próprio (o homem) nos encontros com os lugares.
Talvez este Silêncio não seja de uma rede de interpretações tão complexa como em Lisbon Story, mas é certamente um encontro de um homem com a leitura do seu lugar e eventualmente de si próprio.