um blogfolio de coisas sonoras

14.6.13

Discos voadores: DIRTY THREE - Horse Stories



No dia em que ouvi Horse Stories pela primeira vez era já noite tardia e talvez tivesse sido melhor ter começado esta frase com "Na noite em que ouvi...". Não comecei assim, assim como não fui a tempo de tirar o plástico da cassete, para a colocar a gravar o disco que tocava na RUC, logo a partir da 1000 Miles. Era época de exames, dias de pesadelos sempre com os mesmos livros, calhamaços, ansiedades, no fundo quase uma perda de tempo, ora não tivesse aprendido algo a esmiuçar textos, dissecar formas de escrever para o futuro e a desenvolver ideias de bandas sonoras para horas de estudo chatas. A 1000 Miles caiu no goto como se fosse um presente trazido pelos deuses Velvet Underground. O disco tocou por inteiro, e eu sabia que teria nele, logo a partir daquele momento solitário, um objecto todo arestas, todo não sei quê, todo de energias bruscas e brutas a consumir por cima de tudo aquilo que conhecera até ali. O pós-rock ainda não tinha sido inventado e Horse Stories acabou nem sequer por lhe ficar colado. Ainda bem. Os Dirty Three não servem para isso. São a única banda que conheço que possuem ritmos de mar, tocam como se fossem ondas marítimas a dar rumo a uma barca perdida nas águas, ora na tempestade imensa, ora no dia seguinte calmo da sobrevivência. Cada música é uma incerteza, um caos, uma textura de correntes que oscila entre uma violência de luta (Red) e uma melancolia soberba (Hope; At The Bar). Depois há aquela rudeza sonora que nos atira ao tapete da mesma forma que o faz The Black Angel's Death Song. É tudo violino de Warren Ellis, uma guitarra impossível de definir de Mick Turner, e um estilo free de Jim White que nunca chega a ser jazz, nunca mesmo.

Nos dias em que mostrei a cassete gravada aos amigos não tive sorte alguma. Ninguém, mesmo ninguém, me sabia dizer quem eram. Quando não tinha a cassete comigo, ninguém sabia a resposta à pergunta: "conheces algum trio rock de guitarra-violino-bateria?". No dia em que conheci a rapariga que trabalhava na RUC, que passou o cd naquela noite, ela não se lembrava do nome, embora se lembrasse da música. Era apenas um cd que tinha acabado de ter chegado e estava para ali à mão. Ficou, assim, uma cassete de um trio misterioso, sem nome, álbum sem nome, músicas sem nome. 

Foi só no dia em que vi um mini-documentário sobre os Bad Seeds que acordei para a descoberta dos Dirty Three. A revelação veio numa espécie de epifania sonora. A imagem e o som de Ellis sentado, a tocar só trouxe-me um baque abrupto que ligou aquele momento específíco àquela banda desconhecida: tinha de ser uma banda com Ellis, com aquele som, aquela forma de atacar as cordas e desentranhar melodias profundas. Assim foi muito mais fácil. Google: "Warren Ellis band". Resultado: Dirty Three. Depois foi procurar Horse Stories e ouvir pela segunda vez 1000 Miles, a única canção que a cassete não tinha sido gravada. Não tenho história como esta. Talvez por isso este disco esteja bem lá em cima, algures no espaço dos intocáveis. Mas não é só isso. Os Dirty Three são tudo aquilo que a minha criação imaginada me permite.