
Se In a Bar Under the Sea e Worst Case Scenario eram os dEUS naquele turbilhão de ideias arty na era pós-grunge, uma fase que apontava a desconstrução rock e o pós rock como único futuro possível, os dEUS de My Sister = My Clock são o puro ensaio de ideias brutas que não pertencem a lado algum, de rascunhos sonoros que parecem carregar uma luz sem traço definido. São cerca de 25 minutos ininterruptos de puras canções e elegantes objectos sonoros, cuidadosamente colados e sem obediência a qualquer estilo específico, oscilando entre o claro e o escuro, a cor e a não-cor, a uma velocidade própria de estados psicotrópicos e/ou bipolares. Foi dito e está dito. Há aqui uma espécie de loucura. Uma loucura boa. Feita de (e pela) liberdade de conceitos artísticos. As vozes do trio criativo (Stef Kamil Carlens, Tom Barman, Roudy Trouvé) vincam diferenças abissais e uma capacidade invulgar de elevar as palavras a um patamar poético que justapõe, sem grande esforço, melodia pura e spoken word. Por entre canções de estrutura claramente pop existem ainda vozes que narram. O quê exactamente, não se sabe. Soa a universo fílmico, soa a documentário sonoro. Quem são afinal os personagens? Que banda-sonora é esta afinal?
Os dEUS nunca esconderam as fontes de inspiração que invocam o universo paralelo de Captain Beefheart, o free jazz, os devaneios de Zappa, ou mesmo o psicadelismo de uma folk mais dark e obtusa. Contudo, nunca o fizeram de uma forma programada ou superficial. Fizeram-no sempre de uma forma inteligente, como artistas e cientistas que são, ou foram, inspirando reinvenções até ao colapso. Foram viajantes no tempo sem nunca serem revivalistas. E isto, basta isto, para se poder dizer que os dEUS foram pioneiros de um futuro que, infelizmente, nunca chegou a acontecer, porque, no fundo, nunca se refez dos abandonos de Carlens e Trové e, talvez por isso, já depois de Instant Street, nunca se soube desprender de conceitos rock seguros.