um blogfolio de coisas sonoras

24.6.13

Blogosfera

Talvez seja tempo de contar os pormenores de um encontro. Este blog Did I Ever Told You about The Time When aguarda pelos momentos raros com Scott Walker nas ruas de Chiswick. É apenas a palavra que conta. Não existem fotos. Não existem fotografias. Apenas uma curta história que aconteceu num instante: um curto diálogo sem qualquer pavio de conversa. Pouco importa. Este blog pede isso mesmo. São histórias de encontros com gente conhecida. Não existem nele aquelas fotos ridículas em que o admirador posa com o admirado. Não parece ser de todo essa a ideia. A imagem é o leitor que constrói.

De imagens é feito o The Kittens Covers. São montagens de capaz de discos com gatinhos, algo que vive na fronteira entre a piada singela e o ridículo. Mas isso até nem é um problema quando aquilo que importa mesmo são as capas em si e a forma humorística com que algumas delas são recriadas. Nancy & Lee ou Is This It dos Strokes são alguns exemplos de inteligência. Ainda mais ridículo são as capas recriadas com meias do The Sock Covers. O conceito é estranho, sem qualquer nexo, mas em termos estéticos acaba por se mostrar interessante pelo minimalismo.

Para quem gosta de gifs, aqui fica algo que enche de cor e movimentos castiços qualquer monitor. Chama-se Music History In Gifs. Educativo, colorido e com uma pinta de humor seriamente bem disposta.

14.6.13

Discos voadores: DIRTY THREE - Horse Stories



No dia em que ouvi Horse Stories pela primeira vez era já noite tardia e talvez tivesse sido melhor ter começado esta frase com "Na noite em que ouvi...". Não comecei assim, assim como não fui a tempo de tirar o plástico da cassete, para a colocar a gravar o disco que tocava na RUC, logo a partir da 1000 Miles. Era época de exames, dias de pesadelos sempre com os mesmos livros, calhamaços, ansiedades, no fundo quase uma perda de tempo, ora não tivesse aprendido algo a esmiuçar textos, dissecar formas de escrever para o futuro e a desenvolver ideias de bandas sonoras para horas de estudo chatas. A 1000 Miles caiu no goto como se fosse um presente trazido pelos deuses Velvet Underground. O disco tocou por inteiro, e eu sabia que teria nele, logo a partir daquele momento solitário, um objecto todo arestas, todo não sei quê, todo de energias bruscas e brutas a consumir por cima de tudo aquilo que conhecera até ali. O pós-rock ainda não tinha sido inventado e Horse Stories acabou nem sequer por lhe ficar colado. Ainda bem. Os Dirty Three não servem para isso. São a única banda que conheço que possuem ritmos de mar, tocam como se fossem ondas marítimas a dar rumo a uma barca perdida nas águas, ora na tempestade imensa, ora no dia seguinte calmo da sobrevivência. Cada música é uma incerteza, um caos, uma textura de correntes que oscila entre uma violência de luta (Red) e uma melancolia soberba (Hope; At The Bar). Depois há aquela rudeza sonora que nos atira ao tapete da mesma forma que o faz The Black Angel's Death Song. É tudo violino de Warren Ellis, uma guitarra impossível de definir de Mick Turner, e um estilo free de Jim White que nunca chega a ser jazz, nunca mesmo.

Nos dias em que mostrei a cassete gravada aos amigos não tive sorte alguma. Ninguém, mesmo ninguém, me sabia dizer quem eram. Quando não tinha a cassete comigo, ninguém sabia a resposta à pergunta: "conheces algum trio rock de guitarra-violino-bateria?". No dia em que conheci a rapariga que trabalhava na RUC, que passou o cd naquela noite, ela não se lembrava do nome, embora se lembrasse da música. Era apenas um cd que tinha acabado de ter chegado e estava para ali à mão. Ficou, assim, uma cassete de um trio misterioso, sem nome, álbum sem nome, músicas sem nome. 

Foi só no dia em que vi um mini-documentário sobre os Bad Seeds que acordei para a descoberta dos Dirty Three. A revelação veio numa espécie de epifania sonora. A imagem e o som de Ellis sentado, a tocar só trouxe-me um baque abrupto que ligou aquele momento específíco àquela banda desconhecida: tinha de ser uma banda com Ellis, com aquele som, aquela forma de atacar as cordas e desentranhar melodias profundas. Assim foi muito mais fácil. Google: "Warren Ellis band". Resultado: Dirty Three. Depois foi procurar Horse Stories e ouvir pela segunda vez 1000 Miles, a única canção que a cassete não tinha sido gravada. Não tenho história como esta. Talvez por isso este disco esteja bem lá em cima, algures no espaço dos intocáveis. Mas não é só isso. Os Dirty Three são tudo aquilo que a minha criação imaginada me permite.   

2.6.13

Discos Voadores: dEUS - my sister = my clock



Se In a Bar Under the Sea e Worst Case Scenario eram os dEUS naquele turbilhão de ideias arty na era pós-grunge, uma fase que apontava a desconstrução rock e o pós rock como único futuro possível, os dEUS de My Sister = My Clock são o puro ensaio de ideias brutas que não pertencem a lado algum, de rascunhos sonoros que parecem carregar uma luz sem traço definido. São cerca de 25 minutos ininterruptos de puras canções e elegantes objectos sonoros, cuidadosamente colados e sem obediência a qualquer estilo específico, oscilando entre o claro e o escuro, a cor e a não-cor, a uma velocidade própria de estados psicotrópicos e/ou bipolares. Foi dito e está dito. Há aqui uma espécie de loucura. Uma loucura boa. Feita de (e pela) liberdade de conceitos artísticos. As vozes do trio criativo (Stef Kamil Carlens, Tom Barman, Roudy Trouvé) vincam diferenças abissais e uma capacidade invulgar de elevar as palavras a um patamar poético que justapõe, sem grande esforço, melodia pura e spoken word. Por entre canções de estrutura claramente pop existem ainda vozes que narram. O quê exactamente, não se sabe. Soa a universo fílmico, soa a documentário sonoro. Quem são afinal os personagens? Que banda-sonora é esta afinal?

Os dEUS nunca esconderam as fontes de inspiração que invocam o universo paralelo de Captain Beefheart, o free jazz, os devaneios de Zappa, ou mesmo o psicadelismo de uma folk mais dark e obtusa. Contudo, nunca o fizeram de uma forma programada ou superficial. Fizeram-no sempre de uma forma inteligente, como artistas e cientistas que são, ou foram, inspirando reinvenções até ao colapso. Foram viajantes no tempo sem nunca serem revivalistas. E isto, basta isto, para se poder dizer que os dEUS foram pioneiros de um futuro que, infelizmente, nunca chegou a acontecer, porque, no fundo, nunca se refez dos abandonos de Carlens e Trové e, talvez por isso, já depois de Instant Street, nunca se soube desprender de conceitos rock seguros.