A música dos Rome Pays Off tem tudo para se perder no espaço. Para além de ser de frequências baixas (mais fácil de sentir, menos fácil de ouvir), possui uma dinâmica que oscila entre a lentidão própria do som constante e a apropriação exploratória de um instrumento pouco dado a protagonismos. Essa mesma dinâmica oscila também entre dois pólos: Mark Beazley, num registo melódico dedilhado mais óbvio; e Crawford Blair, dado a subtilezas ambientais de frequências mais profundas e a uma pontuação algures entre uns Labradford e Twin Peaks. A filosofia é a mesma dos Rothko (1997-2010), banda fundada e liderada por da qual Crawford fez parte nos seus primórdios. Com uma única excepção: aqui há uma guitarra eléctrica. A de Chris Gowers (Signals, Karina ESP). Em ambiências subtis e fragmentos sonoros.
Lançado pela editora Trace Recordings, There’s No Simple Explanationé um registo em acto contínuo. Existem nele resquícios de Rothko, obviamente, mas há uma clara distância das dinâmicas mais abstractas e abrasivas. Não existem explicações simples. Nem mesmo complexas. Nem sequer explicações. Talvez seja por isso mesmo que as faixas dos Rome Pays Off são meras enumerações renumeradas. Não querem dizer mais do que aquilo a que soam. No máximo dos máximos definem-se estruturas e ondas que se apagam lentamente para dar lugar a outras numa imprevisibilidade aparentemente, fácil de dominar. A faixa oito, por exemplo, é na verdade a décima: Song Ten. Um exercício de harmónicos e pontuações que fazem lembrar o melhor das ambiências mais obscuras e subterrâneas da música para filmes de 90s.
Os Rome Pays Off estão no palco da Union Chapel. É de dia ainda. Lá fora há uma cidade solta a precisar de uma banda-sonora destas. Feita de acústica de igreja e especulações descritivas da hipotética sonoridade arquitectónica do universo. Contudo, onde há vácuo, não há nada. Não há som algum. Aqui temos um pseudo-silêncio entre as chamas invisíveis de quem ainda tem coragem (sim, coragem) para habitar lugares sonoros tão profundos e inóspitos. Inóspitos para a maioria. Não para nós.
photo: katie english