
A Sister Ray é a primeira. Cheia de gente ainda. Mas nada de filas de 3 horas. Gente a mais ao balcão, gente a mais a espreitar os vinis mais recentes, gente a mais a agarrar a primeira coisa que lhes aparece à mão só porque é o Record Store Day. Nada me interessa. Montra bonita, sim senhora, mas tudo parece ter pantufas: malta que procura discos de pantufas, malta que guarda libras em pantufas, malta que paga em pantufas, malta que ouve música de pantufas. Desço para a Reckless Records e há mais vinil à escolha: alguns do Captain Beefheart, dos Velvet, novos, edições recentes, sem carisma, a pouco mais de £9, £10. Quase valem a pena, não fossem serem esses os preços de qualquer dia.
- Hi, nice to meet you!
– Nice to meet you too. I know you.
– Oh, cool. This is J. she’s teaching me printmaking at university. This is my daughter.
– Hello, nice to meet you
– Hello.
– She wants to see The Arctic Monkeys at Sister Ray.
– I think they were there in the morning…
– See dad, I told you!
– What did you buy.
– Ah, nothing special, some reggae stuff…
– Good
– I better get going.
– Ok, have a nice day…
Era o Ashley Wales dos Spring Heel Jack, projecto do qual era membro-metade com o John Coxon dos Spiritualized e dos About Group. Conheço-o ali, numa loja de discos, através da J. e ele surpreendido por eu conhecer os SHJ. Mesmo sendo através de um disco que eles fizeram a meias com os Low e outras referências via Spaceman. Parece que os SHJ acabaram chateados. Pouco produto, drum+bass fora de moda, más editoras, ditaram uma paisagem desértica à dupla.
Esqueço os discos. Vou à Fopp só para ver o que eles têm para oferecer: nada. Os livros do costume. Poucas promoções. Repetidas. A secção de vinil aumentou mas os preços também – o novo LP dos Spiritualized está a £30. Mas quase quase tiro uma nota de 10 do bolso (por acaso, nem a tenho) para levar o meu disco preferido dosThe Stooges, o primeiro, edição nova dupla. Deixo-o ficar. Hesito. Perco o impulso. E ainda bem.
Desisto da Rough Trade. Gente a mais, freaks a mais e os preços altos do costume? Não, obrigado. Estou deprimido. Apanho antes o 38. Menos curvas no caminho para casa. Saio em Angel. Numa última escapadela vou àFlashback. Discos bons. Três ou quatro do Robert Wyatt, novos, a cerca de £14 é tentador. Conto os trocos. £9 e mais umas pretas. Não chega. Desço à cave. Basculho. Rock, rock, folk, Low por £30, Daniel Johnston por cento e tal… Silver Mount Zion por £6.99. Segunda mão. Em bom estado. Levo.
São cerca de 6 da tarde e ainda estou cá dentro à espera da J. Ela chega. Oferecem-nos umas garrafas de Becks. Ficamos mais um pouco. A loja, pequena, começa a encher. Uma banda monta uns amplificadores, uma bateria, e prepara-se para tocar. Leio que se chamam Fair Ohs e o nome não me é estranho. O boné do gajo que canta também não. O baixista gordo e trapalhão muito menos. À terceira música lembro-me. São os cromos que tocaram antes de nós, os The 99 Call, no Tanned Tin, em Castelló, Espanha. Aqueles que me deixaram um baixo um tom abaixo daquilo que era suposto e quase, não estivesse mais ou menos sóbrio, me davam um embaraço. Chega. Não gosto. Vamos lá para fora. Mais uma cerveja. Fresquinha. Em 5 minutos aparece o 69 do outro lado da rua. Casa.
Um disco dos ASMZ e duas cervejas por £6.99 não é nada mau negócio. Hajam mais Record Store Days.
(Dois dias depois, numa segunda deprimente, vou à Dada comprar outro.Também dos ASMZ. Duplo. Por £12. O Record Store Day é quando um gajo quiser, ou puder, não é?)