um blogfolio de coisas sonoras

25.4.12

RECORD STORE DAY: crónica em andamento

O Record Store Day começa no Twitter: uma fila de 3 horas (nada de metros aqui) à porta da Sister Ray, no Soho. Logo pela manhã. Não estão a vender ao desbarato ou a fazer descontos dignos de um dia como este: anti-digital, anti-indústria, anti-capitalismo. A palavra saldos não existe aqui. São os Arctic Monkeys. Os pobres Arctic Monkeys. Acabadinhos de chegar do Coachella e convencidos disso mesmo. Fico em casa. Dou uma vista de olhos algures na internet aos exclusivos anunciados e decido ir até à Berwick Street só ao princípio da tarde, espreitar a Fopp, e passar na Rough Trade East no regresso a casa.

A Sister Ray é a primeira. Cheia de gente ainda. Mas nada de filas de 3 horas. Gente a mais ao balcão, gente a mais a espreitar os vinis mais recentes, gente a mais a agarrar a primeira coisa que lhes aparece à mão só porque é o Record Store Day. Nada me interessa. Montra bonita, sim senhora, mas tudo parece ter pantufas: malta que procura discos de pantufas, malta que guarda libras em pantufas, malta que paga em pantufas, malta que ouve música de pantufas. Desço para a Reckless Records e há mais vinil à escolha: alguns do Captain Beefheart, dos Velvet, novos, edições recentes, sem carisma, a pouco mais de £9, £10. Quase valem a pena, não fossem serem esses os preços de qualquer dia.

- Hi, nice to meet you!
– Nice to meet you too. I know you.
– Oh, cool. This is J. she’s teaching me printmaking at university. This is my daughter.
– Hello, nice to meet you
– Hello.
– She wants to see The Arctic Monkeys at Sister Ray.
– I think they were there in the morning…
– See dad, I told you!
– What did you buy.
– Ah, nothing special, some reggae stuff…
– Good
– I better get going.
– Ok, have a nice day…


Era o Ashley Wales dos Spring Heel Jack, projecto do qual era membro-metade com o John Coxon dos Spiritualized e dos About Group. Conheço-o ali, numa loja de discos, através da J. e ele surpreendido por eu conhecer os SHJ. Mesmo sendo através de um disco que eles fizeram a meias com os Low e outras referências via Spaceman. Parece que os SHJ acabaram chateados. Pouco produto, drum+bass fora de moda, más editoras, ditaram uma paisagem desértica à dupla.

Esqueço os discos. Vou à Fopp só para ver o que eles têm para oferecer: nada. Os livros do costume. Poucas promoções. Repetidas. A secção de vinil aumentou mas os preços também – o novo LP dos Spiritualized está a £30. Mas quase quase tiro uma nota de 10 do bolso (por acaso, nem a tenho) para levar o meu disco preferido dosThe Stooges, o primeiro, edição nova dupla. Deixo-o ficar. Hesito. Perco o impulso. E ainda bem.

Desisto da Rough Trade. Gente a mais, freaks a mais e os preços altos do costume? Não, obrigado. Estou deprimido. Apanho antes o 38. Menos curvas no caminho para casa. Saio em Angel. Numa última escapadela vou àFlashback. Discos bons. Três ou quatro do Robert Wyatt, novos, a cerca de £14 é tentador. Conto os trocos. £9 e mais umas pretas. Não chega. Desço à cave. Basculho. Rock, rock, folk, Low por £30, Daniel Johnston por cento e tal… Silver Mount Zion por £6.99. Segunda mão. Em bom estado. Levo.

São cerca de 6 da tarde e ainda estou cá dentro à espera da J. Ela chega. Oferecem-nos umas garrafas de Becks. Ficamos mais um pouco. A loja, pequena, começa a encher. Uma banda monta uns amplificadores, uma bateria, e prepara-se para tocar. Leio que se chamam Fair Ohs e o nome não me é estranho. O boné do gajo que canta também não. O baixista gordo e trapalhão muito menos. À terceira música lembro-me. São os cromos que tocaram antes de nós, os The 99 Call, no Tanned Tin, em Castelló, Espanha. Aqueles que me deixaram um baixo um tom abaixo daquilo que era suposto e quase, não estivesse mais ou menos sóbrio, me davam um embaraço. Chega. Não gosto. Vamos lá para fora. Mais uma cerveja. Fresquinha. Em 5 minutos aparece o 69 do outro lado da rua. Casa.

Um disco dos ASMZ e duas cervejas por £6.99 não é nada mau negócio. Hajam mais Record Store Days.

(Dois dias depois, numa segunda deprimente, vou à Dada comprar outro.Também dos ASMZ. Duplo. Por £12. O Record Store Day é quando um gajo quiser, ou puder, não é?)

Covers




  1. Red House Painters - Shock Me
  2. Tortoise & Bonnie Prince Billy - Daniel
  3. Tindersticks - Here
  4. Lou Reed - September Song
  5. Comelade, Bastien, Berrocal & Liebezeit - Prime Of Life
  6. Mick Harvey & Anita Lane - Overseas Telegram 
  7. Scarlett Johansson - Fannin Street
  8. Susanna And The Magical Orchestra - It's A Long Way To The Top
  9. My Bloody Valentine - We Have All The Time In The World 
  10. Op8 - Round and Round

6.4.12

ROME PAYS OFF: não existem explicações simples



A música dos Rome Pays Off tem tudo para se perder no espaço. Para além de ser de frequências baixas (mais fácil de sentir, menos fácil de ouvir), possui uma dinâmica que oscila entre a lentidão própria do som constante e a apropriação exploratória de um instrumento pouco dado a protagonismos. Essa mesma dinâmica oscila também entre dois pólos: Mark Beazley, num registo melódico dedilhado mais óbvio; e Crawford Blair, dado a subtilezas ambientais de frequências mais profundas e a uma pontuação algures entre uns Labradford e Twin Peaks. A filosofia é a mesma dos Rothko (1997-2010), banda fundada e liderada por da qual Crawford fez parte nos seus primórdios. Com uma única excepção: aqui há uma guitarra eléctrica. A de Chris Gowers (Signals, Karina ESP). Em ambiências subtis e fragmentos sonoros.

Lançado pela editora Trace Recordings, There’s No Simple Explanationé um registo em acto contínuo. Existem nele resquícios de Rothko, obviamente, mas há uma clara distância das dinâmicas mais abstractas e abrasivas. Não existem explicações simples. Nem mesmo complexas. Nem sequer explicações. Talvez seja por isso mesmo que as faixas dos Rome Pays Off são meras enumerações renumeradas. Não querem dizer mais do que aquilo a que soam. No máximo dos máximos definem-se estruturas e ondas que se apagam lentamente para dar lugar a outras numa imprevisibilidade aparentemente, fácil de dominar. A faixa oito, por exemplo, é na verdade a décima: Song Ten. Um exercício de harmónicos e pontuações que fazem lembrar o melhor das ambiências mais obscuras e subterrâneas da música para filmes de 90s.

Os Rome Pays Off estão no palco da Union Chapel. É de dia ainda. Lá fora há uma cidade solta a precisar de uma banda-sonora destas. Feita de acústica de igreja e especulações descritivas da hipotética sonoridade arquitectónica do universo. Contudo, onde há vácuo, não há nada. Não há som algum. Aqui temos um pseudo-silêncio entre as chamas invisíveis de quem ainda tem coragem (sim, coragem) para habitar lugares sonoros tão profundos e inóspitos. Inóspitos para a maioria. Não para nós.

photo: katie english