John Chantler: drones de órgão de igreja em fluência exploratória; os primeiros sons vêm do lado oposto ao palco, as frequência mais graves envolvem o espaço por completo; electrónica pré-gravada vem aos poucos do palco, pequenos ruídos, frequências ainda mais graves; o crossfade vai acontecendo aos poucos e o ponto exacto varia conforme o lugar onde o espectador está sentado; o volume da frente, do palco, vai aumentando até cobrir o órgão por completo; depois disso tudo se esvai num fade out lento.


Tony Conrad: sentou-se no palco durante toda a peça de John Chantler; assim que esta terminou, subiu uma cortina, ligou a ventoinha e acendeu uma lâmpada; a sombra projectou-se; o violino é ao mesmo tempo frenético e melancólico, o ataque das cordas é violento; Conrad está vestido de branco, chapéu escuro na cabeça; usa loops e um instrumento lapsteel que produz graves profundos; sai do violino para o tal instrumento e deste novamente para o violino, muda de arco, contorce-se ainda mais e os sons vão com os movimentos da sombra.


Ben Frost: dois ampegs enormes, uma mesa de mistura invulgarmente grande para ter no palco, uma guitarra, uma bateria; os primeiros sons são de arromba, luzes que catrapiscam, gestos de guitara eléctrica hardcore, uma tempestade apocalíptica de ruído e sons de bateria manipulados até ao tutano; ultra-produção; os corpos estremecem e o volume está no limiar, graves em potência vulcânica, uma violência de abismo, impossível abrir os olhos com as ondas sonoras a bater na cara; a intensidade baixa, há uma dose de minimalismo e um momento de lobos ferozes gigantes mesmo colados à nossa cara; depois vem mais uma outra avalanche, desta vez de fazer estremecer o esqueleto, o crânio, tudo; uma hora depois tudo acaba, a igreja não caiu e estamos vivos, mais vivos do que nunca.
