um blogfolio de coisas sonoras

10.2.14

Bill Callahan no Royal Festival Hall 8.2.2014



Acabo de ler dois artigos sobre concertos de Bill Callahan que o comparam a Leonard Cohen. Melhor, que o nomeiam sucessor do canadiano, quer pela poesia das letras, quer pela voz barítono. Nunca tinha pensado nisso. Nem acho que tal analogia seja assim tão óbvia. O que me parece é que há uma clara urgência em encontrar aqueles que venham ser as grandes figuras a ocupar o espaço deixado por Young, Dylan ou Reed. Neste sentido, talvez. Aliás, houve momentos durante o concerto de sábado no Royal Festival Hall em que me lembrei do Lou Reed. O Reed sim. Quer pelas letras, quer pela voz. Quer ainda pelo facto de Bill Callahan passar um concerto inteiro a tocar numa Fender Strat com aquela indisciplina típica de um Reed. No entanto, ao contrário de Reed, Callahan nunca usa qualquer efeito. Nem mesmo distorção. A guitarra soa seca e crua. Mesmo nas partes mais caóticas e de alguma experimentação sónica. É também por alma destas experimentações que o fantasma de Reed aparece. Não bem o Reed, mas mais os Velvet Underground. Aliás, já da outra vez que vi o Bill Callahan na Union Chapel, na altura do Sometimes I Wish We Were An Eagle, fiquei com uns momentos de puro ruído à Velvet que me deixaram verdadeiramente arrepiado, como se tivesse ali à frente, por momentos, naqueles curtos espaços de improviso, todo o legado lo-fi americano. Talvez não me engane porque desta vez aconteceu o mesmo.

O que não aconteceu no passado sábado foi terem tocado uma única música do Sometimes I Wish We Were An Eagle. Abriram com Let Me See The Colts e Rock Bottom Riser (ambas de A River Ain't Too Much to Love), tocaram Dress Sexy At My Funeral mais para a frente, a que lhes valeu a maior ovação, e o resto foi praticamente tudo de Dream River e Apocalypse. Tal tem a sua razão de ser. A banda de Callahan já não tem violoncelo e violino nos arranjos. O baterista não é o mesmo. O guitarrista Jaime Zuverza passou para o baixo (tarefa que cumpre) e todas as guitarradas passaram a ser de Matt Kinsey, confortavelmente nos antípodas dos sons de Callahan: solos perfeitos, ruídos qb e estilo, muito estilo naquela experimentação brava. Se o outro baterista tinha uma eleganância minimal bastante peculiar, este é outro: pratos só o de choque e o bombo de pé é o som rítmico agudo de madeira oca de Dream River. Os quatro juntos deram um concerto com todo o som no sítio, por vezes despido até ao tutano e, tal como a guitarra e a voz Callahan, sem folclores muito coloridos e luminosos.

Foram duas horas de concerto em que Callahan mostrou em palco de que matéria aquelas canções são feitas, como elas se expandem e como elas são, por vezes, um cenário onde outros espaços se abrem, seja para o destaque individual e virtuoso dos músicos, seja para a rudeza de uma harmónica tocada de forma pouco usual. É nisto que Callahan também é mestre: a descontextualizar um vulgar instrumento de todas as suas formas pré-estabelecidas. Toca-o pelo som. Muitas vezes uma nota só. Um simples acto que mostra muito daquilo que as canções dele são feitas. Há sempre algo que é um contraste e que, de certa forma, desmorona toda a construção de canção quando quer tornar-se vulgar. Callahan fá-lo a todo tempo: na voz que dá ritmo à música, nas letras que lhe dão forma ("Beer, Thank You"), naquela forma tão própria de compor por arrasto (o acorde só muda quando Callahan quer). Em Winter Road, última música do concerto, durante a sequência dos dois acordes do fim, fica a memória de um improviso que prolonga o final, Callahan conta o seu dia: que foi à Tate Modern entre as duas e as quatro, que viu muita gente e muita coisa abstracta, e que depois precisou de ver uma cara bonita ("pretty face" para rimar com "Tate"). Há humor nisto. Aquele tipo de humor que só estes anjos negros possuem. E há sobretudo um final sem encore. Tal nunca foi tão desnecessário.