um blogfolio de coisas sonoras

28.2.14

Encontros Imediatos: Jimmy Page



Hoje encontrei-me com o Jimmy Page. Vi-o a atravessar a rua à saída da estação de Kensington Olympia e fui ter com ele. Vestia um sobretudo e tinha o cabelo branco comprido preso atrás. Disse-lhe: “Hey, és o Jimmy Page, sou um grande admirador teu, e dos Led Zeppelin, claro, desde pequeno. Ele riu-se. Gostou do que ouviu. “Sim, sou o Jimmy Page”. Continuei dizendo que “só ouvia Led Zeppelin quando tinha 15 anos” e que “acabei por aprender a tocar guitarra”. “És músico?”, disse ele “e costumas tocar?”. “Às vezes”, respondi, “tocava em bandas rockeiras quando era puto e agora estou mais virado para coisas experimentais”. Enquanto falávamos, caminhávamos. Eu para o choio de todos os dias, ele para algum lado, parecia meio perdido. Ele caminha devagar. Imagino que o peso das guitarras ao longo de tantos anos (Page tem já 70) comece agora a ser o problema dele. Não há fama que perdoe a idade. Continuei a dizer que andava mais nas ondas experimentais tipo o que o John Paul Jones tem andado a fazer. Disse-lhe que o tinha visto há cerca de um ano com os Minibus Pimps e ele torceu o nariz, “e que tal? Não é assim grande coisa pois não?” Eu ri-me e disse-lhe que estava ok para o tipo de coisas que se fazem no Café Oto e ele ficou a perceber o mesmo. “Como é que se chama a banda mesmo?”, perguntou. Quando eu respondi que não conseguia lembrar-me de nomes de bandas difíceis tão cedo pela manhã ele deu uma valente gargalhada. Perguntou-me também de onde é que eu era (o sotaque é sempre um enigma) e disse que também andava a fazer coisas experimentais com o theremin e que ia colocar no website dele, mas que eram coisas com muito power “mesmo a abrir”. Eu disse-lhe que ia ouvir e também que estava precisamente a ouvir o novo disco do Mark Kozelek (ele não o conhecia, obviamente) que tem uma música que se chamava I Watched The Film The Song Remains The Same e que ele deveria ouvir porque a letra explica muito daquilo que eu estava a tentar explicar, do quão importante foi para o Kozelek ver aquilo na altura, na exacta medida em que era importante para um puto ouvir todos os discos dos Led Zeppelin no outro lado do Atlântico Três minutos depois do encontro, já parados no dobrar da esquina, apareceu um tipo que lhe chamou Mr. Page e pediu-lhe para tirar uma foto com ele. Com toda a simpatia do mundo perguntou-me o nome, apertou-me a mão, prazer em conhecer-te, igualmente, e com um sorriso disse ao tipo da foto que estava com pressa e foi para o ginásio onde vou muitas vezes a sessões de yoga. Decerto que ele não foi lá para puxar corpo nas máquinas. O mais provável era ter ido lá a uma consulta de osteopatia ou coisa do género. Contei a história aos colegas de escritório e eles ficaram de boca aberta. Ficaram admirados por o Jimmy Page andar por ali sozinho, a pé, sem limusina e sem uma guitarra às costas. Ficaram também admirados porque é que eu não tirei uma foto ou pedi um autógrafo. E claro, duvidaram da história toda. Burros. A verdade é que não preciso de tirar uma foto para provar que um dia me encontrei com o Jimmy Page. Sei simplesmente que o momento existiu. Não deixa contudo de ser estranho encontrarmos um ídolo na rua, ainda que de uma adolescência distante, e vermos que ele é um tipo simples, sem manias, terra-a-terra, e de uma simpatia única. É daqueles tipos que apetece mesmo passar tempo com ele a conversar sobre música num pub qualquer. Se ele tivesse tempo e pachorra para isso, claro. Durante todo o dia lembrei-me de como gostava, e ainda gosto, claro, dos Led Zeppelin. É que eles não são, nem nunca foram para mim o estereótipo do rockeiro clássico, nem o Jimmy Page é só o gajo dos riffs da Whole Lotta Love que todo o palerma gosta de tocar quando vai a uma loja em Denmark Street experimentar guitarras. Page foi provavelmente o primeiro guitarrista a usar um arco de violino na guitarra e as experiências com o theremin são espantosas. Além disso, as músicas acústicas dos Zeppelin, e nem me refiro à Stairway to Heaven, são de uma engenharia criativa abismal. Por muito que me queira distanciar do mundo rock clássico, dos solos de 10 minutos, e de todo o seu estigma progressivo, sou obrigado a dizer que o Page contribui muito mais para a minha formação experimental do que, por exemplo, os Sonic Youth. Entendem isso? Se sim, também decerto entendem porque é que eu gostaria que o meu próximo encontro fosse com o Neil Young.

Led Zeppelin - Bron-Yr-Aur (Physical Graffiti)

25.2.14

1951: 20 tracks

1. Stars Fell On Alabama - Louis Armstrong And The All Stars - Satchmo At Symphony Hall - 5:18
2. Blue Velvet - Tony Bennett - Because of You - 3:03
3. Baby Let Me Hold Your Hand - Ray Charles - The Best of Ray Charles Early Years - 3:01
4. I'm In The Mood - John Lee Hooker - I'm In The Mood - 2:42
5. April in Paris - Frank Sinatra - Oldies but Goldies - 2:51
6. Unforgettable - Nat King Cole - Unforgettable - 3:13
7. Ramblin' Man - Hank Williams - The Hits, Volume Two - 3:01
8. Morpheus - Miles Davis - The Definitive Miles Davis on Prestige - 2:23
9. The Way You Look Tonight - Erroll Garner - Gems - 3:46
10. Rudiments - Baby Dodds - Talking & Drum Solos / Country Brass Bands - 2:08
11.Till We Meet Again - Doris Day - Vintage Vocal Jazz / Swing No. 122 - LP: On Moonlight Bay - 2:29
12. Three Trotting Songs - Ed Lee Natay - Natay, Navajo Singer - 2:58
13. 12th Street Rag - Arthur Guitar" Smith - Vintage Country No. 14 - EP: Fingers On Fire - 2:12
14. Closing Theme - Dave Brubeck Octet - Dave Brubeck Octet -
15. Moanin' at Midnight - Howlin' Wolf - Bedroom Blues Blues - 2:42
16. Three O'Clock Blues - B.B. King - The Ultimate Collection Blues - 2:59
17. Mother Earth - Memphis Slim - At the Gates of Horn - 3:30
18. Come On-A My House - Rosemary Clooney - Come On-A My House - Greatest Recordings - 2:01
19. Criss Cross - Thelonious Monk - Criss-Cross - 4:40
20. The Loveliest Night of the Year - Mario Lanza - The Great Collection - 3:10

The Notwist - Close To The Glass (Close to the Glass)

17.2.14

Clogs - 5/4 (Lantern)

1950: 20 tracks

1.Everything Happens To Me - Charlie Parker - Charlie Parker With Strings: Complete Master Takes - 3:14
2.Haunted Heart - Jo Stafford - Autumn In New York - 2:43
3.Body And Soul - Bud Powell - Piano Solos - 3:21
4.I Want To Be Happy - Doris Day - Tea For Two - 2:33
5.Accla Taqui (Chant Of The Chosen Maidens)- Yma Sumac - Voice Of The Xtabay (World) - 2:44
6.La Vie En Rose - Edith Piaf - Vintage French Song Nº 83 - EPs Collectors, "Chansons Parisiennes" - 3:02
7.Talking Dust Bowl Blues - Woody Guthrie - Greatest Folk Songs - 2:43
8.East Virginia Blues - Pete Seeger - Darling Corey - 2:07
9.Ode To A Desert Love - Korla Pandit - The Grand Moghul Suite (Digitally Remastered) - 3:32
10.Judy - Hoagy Carmichael - The Stardust Road - 2:33
11.Maybe You'll Be There - Kay Starr - Kay Starr Sings Jazz Ballads (Smooth Jazz and Love Songs By Kay Starr) - 2:22
12.All For You [Summer Stock, 1950] - Gene Kelly and Judy Garland - Summer Stock / In The Good Old Summertime - 2:00
13.Conversa de Botequim - Aracy De Almeida - The Music of Brazil / Aracy de Almeida sings Noel Rosa / Recordings 1950-1958 - 2:40
14.Long Gone Lonesome Blues - Hank Williams - Just Hank Williams - 2:40
15.Dream A Little Dream of me - Ella Fitzgerald & Louis Armstrong - The Complete Recordings 1946-1957 - 3:07
16.Rollin' Stone - Muddy Waters - Rollin' Stone Blues - 2:42
17.Mona Lisa (2003 Digital Remaster) - Nat King Cole - The Classic Singles - 3:15
18.Shotgun Blues - Lightnin’ Hopkins - The House of the Rising Sun Blues - 2:40
19.Hard Luck Blues - Roy Brown - Hard Luck Blues - 3:00
20.Tennessee Waltz - Les Paul The Outstanding Les Paul & Mary Ford - 3:07

10.2.14

Bill Callahan no Royal Festival Hall 8.2.2014



Acabo de ler dois artigos sobre concertos de Bill Callahan que o comparam a Leonard Cohen. Melhor, que o nomeiam sucessor do canadiano, quer pela poesia das letras, quer pela voz barítono. Nunca tinha pensado nisso. Nem acho que tal analogia seja assim tão óbvia. O que me parece é que há uma clara urgência em encontrar aqueles que venham ser as grandes figuras a ocupar o espaço deixado por Young, Dylan ou Reed. Neste sentido, talvez. Aliás, houve momentos durante o concerto de sábado no Royal Festival Hall em que me lembrei do Lou Reed. O Reed sim. Quer pelas letras, quer pela voz. Quer ainda pelo facto de Bill Callahan passar um concerto inteiro a tocar numa Fender Strat com aquela indisciplina típica de um Reed. No entanto, ao contrário de Reed, Callahan nunca usa qualquer efeito. Nem mesmo distorção. A guitarra soa seca e crua. Mesmo nas partes mais caóticas e de alguma experimentação sónica. É também por alma destas experimentações que o fantasma de Reed aparece. Não bem o Reed, mas mais os Velvet Underground. Aliás, já da outra vez que vi o Bill Callahan na Union Chapel, na altura do Sometimes I Wish We Were An Eagle, fiquei com uns momentos de puro ruído à Velvet que me deixaram verdadeiramente arrepiado, como se tivesse ali à frente, por momentos, naqueles curtos espaços de improviso, todo o legado lo-fi americano. Talvez não me engane porque desta vez aconteceu o mesmo.

O que não aconteceu no passado sábado foi terem tocado uma única música do Sometimes I Wish We Were An Eagle. Abriram com Let Me See The Colts e Rock Bottom Riser (ambas de A River Ain't Too Much to Love), tocaram Dress Sexy At My Funeral mais para a frente, a que lhes valeu a maior ovação, e o resto foi praticamente tudo de Dream River e Apocalypse. Tal tem a sua razão de ser. A banda de Callahan já não tem violoncelo e violino nos arranjos. O baterista não é o mesmo. O guitarrista Jaime Zuverza passou para o baixo (tarefa que cumpre) e todas as guitarradas passaram a ser de Matt Kinsey, confortavelmente nos antípodas dos sons de Callahan: solos perfeitos, ruídos qb e estilo, muito estilo naquela experimentação brava. Se o outro baterista tinha uma eleganância minimal bastante peculiar, este é outro: pratos só o de choque e o bombo de pé é o som rítmico agudo de madeira oca de Dream River. Os quatro juntos deram um concerto com todo o som no sítio, por vezes despido até ao tutano e, tal como a guitarra e a voz Callahan, sem folclores muito coloridos e luminosos.

Foram duas horas de concerto em que Callahan mostrou em palco de que matéria aquelas canções são feitas, como elas se expandem e como elas são, por vezes, um cenário onde outros espaços se abrem, seja para o destaque individual e virtuoso dos músicos, seja para a rudeza de uma harmónica tocada de forma pouco usual. É nisto que Callahan também é mestre: a descontextualizar um vulgar instrumento de todas as suas formas pré-estabelecidas. Toca-o pelo som. Muitas vezes uma nota só. Um simples acto que mostra muito daquilo que as canções dele são feitas. Há sempre algo que é um contraste e que, de certa forma, desmorona toda a construção de canção quando quer tornar-se vulgar. Callahan fá-lo a todo tempo: na voz que dá ritmo à música, nas letras que lhe dão forma ("Beer, Thank You"), naquela forma tão própria de compor por arrasto (o acorde só muda quando Callahan quer). Em Winter Road, última música do concerto, durante a sequência dos dois acordes do fim, fica a memória de um improviso que prolonga o final, Callahan conta o seu dia: que foi à Tate Modern entre as duas e as quatro, que viu muita gente e muita coisa abstracta, e que depois precisou de ver uma cara bonita ("pretty face" para rimar com "Tate"). Há humor nisto. Aquele tipo de humor que só estes anjos negros possuem. E há sobretudo um final sem encore. Tal nunca foi tão desnecessário.        

Bohren & der Club of Gore - Segeln ohne Wind (Piano Nights)