um blogfolio de coisas sonoras

4.4.13

Um aquário e um balão verde


Ao ouvir a conversa entre David Toop e Rie Nakajima dá para perceber os desafios que nos esperam. Primeiro porque se revelam dois músicos pouco convencionais. Toop é um guitarrista cujo instrumento foi abandonado a silêncios longos entre cada nota. Escreve livros sobre arte sonora e tem o laptop como melhor ferramenta da exploração musical. Nakajima vê-se, acima de tudo, como alguém que faz instalações sonoras e pensa no espaço das mesmas, e muito pouco como performer. Depois há toda uma ideia de simplificação de conceitos e ideias musicais que, se por um lado libertam o músico de prisões tecnicistas (na ideia contrária da tendência intelectual de complicação), por outro lado pisam terrenos novos que deixam no ar dúvidas sobre a sua apreciação para lá da estética.

As performances vão acontecendo por toda a sala do café Oto. O palco, se é que lhe podemos chamar um palco, fica no centro. Os dois pianos, um mais preparado do que outro, estão prontos a ser tocados. Os instrumentos de Nakajima estão no chão. Numa mesa existe algo parecido com um aquário, com um microfone e tubos de plástico transparente dentro. Toop toca guitarra clássica. Notas esparsas e singelas. As melodias saem como um fio líquido, por vezes processadas pelo laptop. Segue-se o duo Elaine Mitchener e Emi Watanabe num duelo de voz e flauta: os sons procuram-se a si próprios na pontuação de do som de uma colher num copo de vidro. A partir daqui estamos avisados. Nada se constrói. Nakajima vai para o piano, preparado (a vírgula aqui antes do preparado) para ter alguém a caminhar descalça sobre ele. As melodias desfazem-se. A ideia fica-se mais pelo visual do que pelo sonoro e a dissonância abre alas para o que vem a seguir, provavelmente a melhor escultura da noite. No escuro há uma sombra que toca saxofone. A sombra parece-se com John Butcher a processar sons através de um simples pedal. Não se percebe muito bem o que ali acontece. Está escuro. Ainda bem. Concentremo-nos nos sons e não na rapariga do cabelo azul. As palavras faladas de Daniela CascelaI talk to you sculpure as low as possible, fazem todo o sentido depois disto. Os sons saem abruptos. Ao mesmo tempo artificiais e orgânicos. O que não faz muito sentido são os feedbacks com berlindes de Keiko Yamamoto. O ruído interrompe a ideia sensorial como se não fizesse parte dela. Errado. É neste ruído que encontramos algum silêncio e a sintonia para o que se segue. Marjolaine Charbin toca ao de leve com um arco um fio no piano preparado, (a vírgula depois) e desembarca no cais sonoro de Toop. A pontuar tudo Nakajima enche um balão verde de ar e com ele borbulha os sons do aquário captados por um hidrofone. São esculturas, dizem. Meros objectos de arte sonora. Mas ainda há quem prefira pensar simples. Sons simples e nada mais. Nada de teorias, nem interpretações metafísicas. Afinal de contas, são meros sons de água feitos com com tubos de plástico transparente e um balão verde.