Já passaram três dias. O que resta agora é uma gravação feita com um daqueles gravadores de bolso que nos contêm os movimentos e o entusiasmo das palmas. O que já não é nada mau. E ao ouvir novamente o concerto de Fred Frith e Christian Marclay da passada sexta-feira, no Café Oto, somam-se imagens de duas figuras em movimentos de fantasma. Os sons agora re-ouvidos sem a componente visual da performance recriam imagens mais abstractas e justapostas. No Café Oto vemos dois homens em diálogo, numa linguagem que lhes é própria, a conspirarem um contra o outro partículas sonoras dispostas em dinâmicas inventivas e pan-auralidades (não existe certeza que esta palavra exista) imprevisíveis. Aqui, à medida que este texto é escrito, apenas com a memória de duas figuras-fantasma de três dias, os sons surgem como blocos justapostos sem o estéreo visual de espectador de olhar ora para um, ora para o outro, com o esforço de tentar compreender de onde vêm os sons.
Marclay tem gestos que vagueiam algures entre um pintor que retoca cores por pura experimentação e um legista que disseca a orgânica cadáveres como se estes fossem máquinas. No acto, descobre e expõe a ideia para a deixar abandonada na colagem incompleta. Normalmente, algo que oscila entre o som produzido através do contacto das mãos com objecto sonoro (vinil), deste com a máquina (o gira-discos), e a delicada escolha de secções sonoro-musicais que impõe ritmos desconchavados e, muitas das vezes, uma ironia musical atrevida. Esta ironia manifesta-se, como seria de esperar em Marclay, quer em variações de velocidade perfeitamente identificáveis de Strangers In The Night , quer em momentos de abrandamento de exposição sonora com secções guitarras clássicas convencionais, em óbvia antítese com o virtuosismo sonoro não convencional de Frith.
Com a excepção de momentos ao piano, Frith não poupa a guitarra a experimentalismos. Escovas de engraxar sapatos e trinchas produzem os primeiros sons. Às primeiras acelerações de pratos de Marclay, Frith responde com uma percussão de pincéis no braço de uma guitarra deitada em cima da mesa. Debaixo desta, os pés dançam descalços sobre um pedal de volume e outros efeitos. O resultado é uma colagem de retalhos de tonalidades dispersas, onde todas as manipulações são assumidamente físicas, em justa consonância com a inquietação de Marclay. Existem também momentos de temperamento mais ambiental, onde um ebow produz fugas lineares horizontais ou um arco de violino fabrica dissonâncias puras. Mas, a forma como Frith engendra os mecanismos do instrumento (em claro desafio às colagens de flamenco de guitarra e de saxofone em desalinho de Marclay) é, na maioria das vezes, claramente de carácter percussivo.
Como seria de prever, a segunda meia hora da dupla foi algo mais retalhada e ruidosa. Ouviu-se um pouco mais de Marclay e um pouco mais de Frith. Mas com isto não se quer dizer que o diálogo-desafio tenha dado lugar a dois monólogos artísticos. Pelo contrário, a densidade sonora da dupla ganhou mais corpo, o que permitiu a liberdade para algumas subtilezas (por exemplo, Marclay a explorar sons com o simples abanar de um vinil), chegando mesmo a provocar inevitáveis reacções num público claramente atento. Atento porque, acima de tudo, não é todos os dias que se presencia um desafio destes. O último aconteceu nos anos 80. Quando é que será o próximo?