um blogfolio de coisas sonoras

3.3.12

Jonathan Richman: A aparente contradição de parar para se mexer todo



Só faltou mesmo You Can’t Talk To The Dude e I Was Dancing In A Lesbian Bar. Faltou também estar um pouco mais perto. Sem o espaço criado pela imensidão reverberante das igrejas. Algures num pequeno bar. Com as pernas a terem de mexer tanto pela música como pelo cansaço de estar de pé. Com o movimento contagiante dos corpos aos encontrões e, quiçá, algumas imitações dos passos de dança de Jonathan Richman, que não raras vezes, pára de tocar a meio das músicas para se mexer todo. Já faz parte. A plateia já o sabe.

Mas na falta pode existir um mais: na noite de sexta-feira, dia 2 de Março de 2012, revelou-se num momento em que Richman se afasta lentamente do microfone para fazer reverência à acústica do templo: “what a beautiful building this is”. Richman joga com isso. Parece ser meticuloso na forma como usa o microfone que amplifica a guitarra, explorando sons na distância/proximidade, nas diferentes partes da caixa, ou mesmo nos botões da pequena mesa de mistura que usa em palco à qual recorre várias vezes durante (não entre) as músicas. Que mistérios sonoros esconde aquela criatura de madeira? Só ele o sabe.

O Moon Queen Of Night on Earth (2010) é o album de These Bodies That Came To Cavort, Sa Voix M’Attise, We’ll Be The Noise, We’ll Be The Scandal ou My Affected Accent. Because Her Beauty Is Raw And Wild(2008) dá-nos a música título e When We Refuse To Suffer. Mas o conceito-álbum é muito pouco relevante em Richman. Em palco, todas aquelas músicas são objecto de reconstrução constante. Um pontapé aqui, outro ali; um devaneio improvisado na guitarra; uma parte solo de Tommy Larkins (repare-se como o introvertido, sonâmbulo e discreto Larkins se torna quase uma marioneta essencial dos improvisos de Richman); o típico palavreado esgazeado de Richman entre as músicas. Daí Egyptian Reggae, tocada aos trambolhões, passar quase despercebida num todo orgânico onde tudo parece ser a mesma peça ininterrupta.

Só faltou outra coisa. Algo que não se sabe bem o que é, mas que se está sempre à espera em concertos destes: um truque, uma surpresa, um momento único, algo que fique para sempre na memória. Jarvis Cocker estava na plateia. Por momentos ficou-se à espera que saltasse para o palco (algo que ele faz tão bem) para uma dupla sanguínea de movimentos dançarinos. Mas não. Jarvis sabe muito bem que Richman é já uma lenda.