um blogfolio de coisas sonoras

10.3.12

Piano Magic: O mapa sonoro das igrejas



Existem apenas duas coisas a fazer dentro de uma igreja: a) aturar padres e ouvir missas b) escutar o som do espaço, seja ele silêncio (o “silêncio” também é som), puro som ou música. Provavelmente contra a (boa) fé de muita (boa) gente, quer de um lado, quer do outro, ambas hipóteses podem ser entendidas como legítimos momentos de religiosidade ou espiritualidade. Ou, se calhar, nem uma coisa nem outra. Se reduzirmos as coisas ao seus corpos básicos, uma igreja é um edifício, um espaço arquitectónico em determinado lugar do mapa, e ponto final. Vendo as coisas desta forma, a Union Chapel em Islington, Londres, é um lugar onde acontecem concertos. É o lugar onde, ao domingo de manhã, acontece uma celebração religiosa para cerca de 25 pessoas e à noite um concerto rock da Patti Smith para uma casa cheia com cerca de 700 pessoas. É também o lugar onde, quase todos os sábados por volta do meio dia, existe um evento gratuito chamado Daylight Music, promovido por Arctic Circle, agora com o apoio de The 405. Entre o meio dia e as duas da tarde pode-se ter a mais variada trupe de músicos e panóplia de estilos musicais. Desde coros búlgaros até música electrónica, passando pelo rock e a folk, sem dúvida o género predilecto naquele espaço. (Para quem está demasiado longe para acompanhar estas novas tendências da música londrina existe sempre um podcast online.) Tudo isso acompanhado por um chá/café e uma fatia de bolo do bar improvisado (receitas a reverter para o Margins Project).

Mas onde é que realmente se traça a distinção entre a religião e a música? Onde é que começa e termina o palco? Começa onde acaba o altar (e vice-versa) ou são ambos tão-só a mesma coisa? A música faz, e sempre fez parte da religião, das cerimónias. A acústica reverberante das igrejas, tão apreciada por músicos, foi muito mais pensado para amplificar sons e música do que para tornar a voz perceptível e a palavra entendível. A igreja foi pensada para ampliar a voz cantada e alimentar uma espécie de silêncio terapêutico.

(Um pormenor: para os concertos nas igrejas não existem aparelhos de efeitos sonoros de reverberação, por muito que músicos como Sylvain Chauveau peçam um pouco menos disso na voz durante o soundcheck.)

A presença de Áine O’Dwyer no palco alimenta a dúvida. Pensar nela é transpor para o palco humano um dos anjos nos vitrais da rosácea colorida da Union Chapel. Não só porque ver um ser a tocar harpa num palco com fundo de altar é uma imagem apolínea quase perfeita, mas também porque os sons da harpa invocam uma verdadeira reverência silenciosa que adormece novamente os corpos ainda acabados de acordar para o trânsito citadino, agora deixado lá fora. Não será de todo impensado dizer que a longa peça de Áine possui uma estrutura meditativa feita para espaços amplos como aquele. É bem notória a tendência para o drone e repetitivismo de motivos, semeada no seu mais recente trabalho discográfico MusicForChurchCleaners, curiosamente gravado num outro espaço religioso não muito longe dali, na St. Marks Church, Chapel Hill, também em Islington. Como qualquer anjo que se preze, Áine fez também jus da sua omnipresença e acompanhou os dois projectos que se seguiram. Primeiro com o pintor/músico Mark Fry, referência quase esquecida do folk psicadélico inglês, autor do agora consagrado Dreaming With Alice de 1972. Depois com os anglo-franceses Piano Magic, liderados por Glen Johnson, absoluta referência de um pós-rock mais introspectivo de finais de anos 90 e prestes a lançar um novo disco intitulado ‘Life Has Not Finished With Me Yet’ pela editora co-curadora do evento,Second Language.

Depois disto, os corpos regressam à luz do dia, às ruas apinhadas de gente a correr de loja em loja. Alguns vão para casa. Mas, depois disto, todos agora sabem perfeitamente que a hóstia sagrada não é algo que se coma.

3.3.12

Jonathan Richman: A aparente contradição de parar para se mexer todo



Só faltou mesmo You Can’t Talk To The Dude e I Was Dancing In A Lesbian Bar. Faltou também estar um pouco mais perto. Sem o espaço criado pela imensidão reverberante das igrejas. Algures num pequeno bar. Com as pernas a terem de mexer tanto pela música como pelo cansaço de estar de pé. Com o movimento contagiante dos corpos aos encontrões e, quiçá, algumas imitações dos passos de dança de Jonathan Richman, que não raras vezes, pára de tocar a meio das músicas para se mexer todo. Já faz parte. A plateia já o sabe.

Mas na falta pode existir um mais: na noite de sexta-feira, dia 2 de Março de 2012, revelou-se num momento em que Richman se afasta lentamente do microfone para fazer reverência à acústica do templo: “what a beautiful building this is”. Richman joga com isso. Parece ser meticuloso na forma como usa o microfone que amplifica a guitarra, explorando sons na distância/proximidade, nas diferentes partes da caixa, ou mesmo nos botões da pequena mesa de mistura que usa em palco à qual recorre várias vezes durante (não entre) as músicas. Que mistérios sonoros esconde aquela criatura de madeira? Só ele o sabe.

O Moon Queen Of Night on Earth (2010) é o album de These Bodies That Came To Cavort, Sa Voix M’Attise, We’ll Be The Noise, We’ll Be The Scandal ou My Affected Accent. Because Her Beauty Is Raw And Wild(2008) dá-nos a música título e When We Refuse To Suffer. Mas o conceito-álbum é muito pouco relevante em Richman. Em palco, todas aquelas músicas são objecto de reconstrução constante. Um pontapé aqui, outro ali; um devaneio improvisado na guitarra; uma parte solo de Tommy Larkins (repare-se como o introvertido, sonâmbulo e discreto Larkins se torna quase uma marioneta essencial dos improvisos de Richman); o típico palavreado esgazeado de Richman entre as músicas. Daí Egyptian Reggae, tocada aos trambolhões, passar quase despercebida num todo orgânico onde tudo parece ser a mesma peça ininterrupta.

Só faltou outra coisa. Algo que não se sabe bem o que é, mas que se está sempre à espera em concertos destes: um truque, uma surpresa, um momento único, algo que fique para sempre na memória. Jarvis Cocker estava na plateia. Por momentos ficou-se à espera que saltasse para o palco (algo que ele faz tão bem) para uma dupla sanguínea de movimentos dançarinos. Mas não. Jarvis sabe muito bem que Richman é já uma lenda.